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jul 31

EDITORIAL DA SEMANA: É SEMPRE BOM RECORDAR

BOLINHA DE GUDE

OS DIAS ERAM ASSIM ...

*Por Luiz Antonio de Moura –

O título pode parecer conhecido, mas, nada tem a ver com o homônimo televisivo. Trata-se, na verdade, de recordar como eram os dias da infância das pessoas que hoje, como eu, circulam pela faixa dos sessenta anos de idade. Não se trata de saudosismo ou de recordações melancólicas, mas, de trazer para os moços e moças de hoje o que de melhor pudemos vivenciar nos idos anos da nossa juventude. Anos que não voltam mais, mas que, com certeza, se voltassem, encontrariam inúmeros adeptos, apesar do Facebook, do instagram, do Whatsapp e de outras redes sociais conhecidas.

Os meninos da minha época, assim como algumas meninas também, jogavam bolinha de gude nos terreirões. Era um entretenimento e tanto! Duas eram as modalidades mais disputadas: o triângulo e a búlica.  No primeiro modelo, riscava-se um triângulo mais ou menos grande em qualquer espaço de chão de terra e, mais adiante, traçava-se um risco reto no chão. Vários garotos, jovens e adultos participavam do jogo. Primeiro, decidia-se qual seria a aposta. Normalmente, começava com uma bolinha de gude para cada participante, casada no centro do triângulo, mas, podia-se optar, também, por duas ou mais bolinhas. Os três ou quatro participantes alinhados ao lado do triângulo arremessavam, de forma individual, sua bolinha mestra na direção da linha reta riscada no chão. A ordem de jogada era obedecida a partir de quem ficasse mais próximo da linha. Às vezes alguém parava exatamente em cima da linha e, pela lógica, seria o primeiro a jogar. Mas, um dos participantes ao lançar sua bolinha, acertava aquela que estava sobre a linha e abocanhava o primeiro lugar. A partir dali, era matar ou morrer. O jogo era divertido! Muitos meninos iniciavam o jogo com três ou quatro bolinhas e, ao final, graças à habilidade e à mão certeira, saíam com mais de vinte bolinhas, novas ou velhas, mas, saíam felizes e fazendo gozação com os perdedores. Todos riam, zombavam e, não raro, brigavam também, mas tudo acabava em muita risada. O segundo modelo (a búlica) era mais entediante, mas, era bastante usual também.

Da mesma época, e quase que de forma simultânea, meninos e meninas soltavam pipas. Que brincadeira agradável! Como era bom passar cerol na linha para, ao cruzar com pipas que vinham de longe, ter o gosto de cortar a linha do “adversário” e ver sua pipa balançando de forma desgovernada e vagueando em queda livre pelo espaço. O grande prazer não era apenas cortar a linha do outro, mas, aparar a pipa que caía a esmo e conseguir trazê-la na mão, como dizíamos então, com largas braçadas. Soltar pipa era o esporte favorito dos meninos, e de muitas meninas também, e que, apesar do tempo, não saiu totalmente da moda.

Tinha, ainda, o pique-esconde, o pulo da corda e da amarelinha e toda uma gama de diversões, de invenções e de entretenimentos que faziam voar os dias das longas férias escolares, do meio ou do final do ano.

Brincava-se com os famosos carrinhos de rolimã, infernizando as calçadas com um zunido gostoso de ser ouvido. Cada um fazia e incrementava seu próprio carrinho. Uns, criando um “sistema” diferenciado de freios! Outros, colocando rolimãs de tamanhos diferentes na frente ou na traseira. Outros, ainda, criavam um assento extra para o carona que, não raro, era a menina mais charmosa do grupo, por quem palpitavam corações e traziam sonhos e paixões inesquecíveis. Como era bom transportar aquela por quem o nosso coração pegava fogo, ainda mais quando conseguíamos vencer a corrida! Tudo era maravilhoso, tudo era divertido!

Por falar em corações e em paixões, como a gente sofria pela garota amada. Pedia-se ao amigo ou à amiga de confiança para levar os famosos “bilhetinhos” e “cartinhas de amor”, nos quais eram escritas coisas bastante sentimentais,  com pedidos de namoro, com convites para um encontro fortuito, para uma festinha de aniversário na casa de um vizinho onde, quase sempre, rolava um som romântico, convidativo para uma dança de rosto colado, quando a paixão, então, chegava ao ponto máximo. Tudo era lindo!

Falar sobre as famosas peladas é quase chover no molhado. De tão boas, são praticadas até os dias de hoje. Metade pra cá, metade pra lá, pouco importando o número, sendo fundamental a existência de uma bola qualquer, um gol de cada lado, e o resto era (e ainda é) só alegria. Jogava-se uma peladinha todo dia, se fosse possível. Na escola, na rua, no ponto final do ônibus entre uma chegada e outra, na quadra emprestada... em qualquer lugar. Na escola pública na qual eu estudava, jogávamos pelada até com tampinha de garrafa de refrigerante, com goleiro e tudo! Tinha falta, pênalti, lateral e escanteio. Tudo era diversão, tudo era alegria, tudo era sonho e romantismo! Sabíamos viver. Soubemos viver, mas, infelizmente, não fomos capazes de trazer tudo aquilo para os nossos filhos e filhas, hoje reduzidos a uma pequena caixinha retangular, por meio da qual afirmam estarem se divertindo, trocando conhecimentos, falando de amor, de sexo, de gostos e de prazeres, mas..., distantes uns dos outros. Falta-lhes o contato físico. O chute na canela, no meio de uma pelada; o tapa na cara, no meio de uma briga por causa de uma pipa de papel de seda; o abraço caloroso depois de uma vitória; o pegar na mão da garota desejada; o gostinho, a sensação e a alegria do primeiro beijo e tudo o mais. Hoje tudo isto é revelado por meio de emojis: mãozinha, tchauzinho, beijinho, risadinha, choro, sinal de positivo, de negativo etc., de forma fria e desprovida de qualquer sentimentalismo, como se fossem robôs falando uns com os outros. Dizem que são felizes! Talvez sejam sim, mas, de uma forma resultante da evolução tecnológica, e não, da evolução humana, com o aperfeiçoamento dos brinquedos, dos meios de entretenimento e das disputas sadias. Falta a estas últimas gerações o pé descalço no chão, o contato com a terra, com os rios e lagos, com o pescar na lagoa do vizinho e com o subir na árvore, seja para pegar uma fruta, uma pipa, um balão ou simplesmente para beijar a menina paquerada e sonhada por longos dias.

Nossos dias eram assim, cheios de pobreza, de simplicidade e de dificuldades, mas, também, cheios de alegrias, de emoções, de sonhos, de projetos e de expectativas porque não tínhamos o Android ou o IOS, dois dos principais sistemas operacionais utilizados na transmissão e na recepção de dados, para calcular as inúmeras possibilidades e, em segundos, mostrar resultados. Tínhamos que aprender a esperar o momento certo para tudo. Aprendíamos a lançar o anzol e, pacientemente, aguardar o peixe morder a isca. Não existiam peixes inteligentemente preparados para morder iscas assim que as vissem cair n’água. Fumava-se um cigarrinho ou tomava-se um golinho de whisky trazido por algum amigo mais abastado, escondido dos pais. Tinha-se prazer simplesmente no fazer algo escondido. Não estávamos sendo filmados ou tendo nossas intimidades reveladas em “redes sociais” ou coisa do gênero e, quando algum amigo ou amiga denunciava nossos atos para os pais, a coisa ficava feia.

As meninas vibravam com a chegada da maturidade, com a primeira experiência no uso do absorvente, com o uso escondido do batom e do esmalte, das primeiras aparadas e pinturas dos cílios, das saias curtas e do shortinho sensual, que causavam tanta sensação entre os jovenzinhos que, desde muito cedo queriam estar ao lado sexo oposto, fazendo mirabolantes projeções de futuro. Tudo era muito simples e bonito, porém, sem vulgaridades.

É de se lamentar que os jovens de hoje não possam mais, sequer, circular de forma livre pelas ruas, calçadas e bairros sem correrem o risco de um assalto, de uma agressão, de uma violência ou mesmo de uma bala perdida. Tudo, por culpa da tecnologia que trouxe jogos vorazes e violentos, disputas acirradas que, não raro, induzem a rivalidades mortais entre indivíduos e grupos, como tem sido visto, por exemplo, nos estádios de futebol. A eletrônica invadiu vidas e lares, agrediu sistemas milenares de convívio e destruiu sonhos, sentimentos, projetos e expectativas.

A extrema liberdade hoje desfrutada afasta a grandeza de cada ato praticado. É como o respirar o oxigênio no estado de maior pureza: causa perplexidade e assombro. Não existem segredos nem intimidades preservados. Tudo é volátil e vulgar, sem qualquer sensação de surpresa ou de ineditismo. Espera-se tudo de todos a qualquer momento e em qualquer lugar!

Aqueles foram dias verdadeiramente mágicos, porque foram herdados dos nossos bisavós, dos avós, dos pais, dos tios e dos irmãos mais velhos que, de geração em geração, foram trazendo e ensinando aos mais novos. Mas nós, lamentavelmente, não soubemos trazer aquela herança para as nossas crianças, nossos jovens e adolescentes e preferimos o caminho fácil do aparelho eletrônico que, inclusive, tem nos substituído com algum sucesso, pois, estão sempre ao lado dos nossos filhos e filhas fazendo-lhes a companhia que a agitação do mundo tem nos impedido de fazer e dando-lhes uma segurança que não somos mais capazes de dar. Os dias eram assim...

Não quis espantar os jovens nem causar angústias nos mais velhos. Quis, apenas, falar um pouco sobre os dias da minha juventude ao lado de todos aqueles que, hoje, ostentam ruguinhas, barriguinhas, cabelos brancos ou calvície, mas, que mantêm vivas n’alma as doces recordações dos belos dias que foram vividos com sabor, com amor, com felicidade e com paixão, e que hoje, com certeza, fazem a diferença entre as gerações que nos sucederam, pois, dificilmente elas sentirão saudades do ambiente eletrônico no qual estão mergulhadas até a alma, porque ali tem de tudo, menos sentimentos ou calor humano. Seja feliz, e boa sorte! 

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

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