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nov 19

EDITORIAL DA SEMANA: É PRECISO CORAGEM PARA MERGULHAR

CURSO DE FORMAÇÃO

ESCOLA DE CATEQUESE – É PRECISO AVANÇAR PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O papel mais importante a ser desempenhado por aquele ou aquela que trilha o caminho da teologia é o da reflexão. Cabe ao estudioso da teologia exercer, de forma constante e permanente, o sagrado exercício da reflexão à luz das Sagradas Escrituras, do Magistério e da Tradição, sim, mas, também, à luz do tempo presente, apresentando proposições que, de alguma forma, possam amalgamar a Palavra e a Ação.

Não é estranho para ninguém que o mundo está passando por dias bastante difíceis. Nada que já não tenha ocorrido de forma análoga em tempos passados. São desafios propostos, e muitas vezes impostos, pelo tempo e pelo suceder das gerações. A grande diferença entre o agora observado e os tempos mais antigos, está na formação do povo de Deus que, outrora, sem nenhuma tecnologia, era formado de um jeito mais eficaz, até por conta da boa vontade que existia da parte dos fiéis para com seus pastores e diretores espirituais. Hoje, esta relação está bastante dificultada, justamente, em decorrência do mau uso e do mau aproveitamento de uma tecnologia avançada que, ao invés de atuar como aliada, age como séria adversária, sobrepondo métodos absolutamente profanos e profanados sobre outros, sagrados e até mesmo consagrados, por meio da experiência religiosa.

O que temos presenciado hodiernamente faz-nos perceber que algo está falhando seriamente, haja vista que, também não é segredo para ninguém, muito menos falso, os templos estão cada dia menos ocupados. Ou seja, os fiéis de antigamente morreram, ou encontram-se fisicamente impossibilitados de locomoverem-se, e não conseguiram ser substituídos por seus sucessores que, filhos de uma sociedade de consumo midiático em evidente ascensão, veem na religião e na prática religiosa algo extremamente ultrapassado, e, porque não dizer, alienante, levando-se em consideração que o mundo midiático, com suas inúmeras redes sociais e propostas das mais diversas e diversificadas, oferece opções muito mais palatáveis e prazerosas, além de destilarem gigantescas torrentes de uma sensação percebida e recebida como “felicidade”.

Desta forma, como atrair um público que vivencia estas experiências, principalmente, as parcelas mais jovens, com métodos e pessoas tão antigas, quanto desatualizadas? E mais, e mais grave: um público que só é atraído para uma necessária catequese, nos períodos imediatamente antecedentes à administração dos sacramentos mais vistosos, como o Batismo, a 1ª comunhão, a confirmação do Batismo e/ou o matrimônio. Quer-se dizer: a catequese ofertada, principalmente, pela igreja Católica só ocorre, de fato, e, totalmente, direcionada, em momentos intrinsecamente vinculados com os sacramentos a serem recebidos pelo fiel. Passados estes períodos de “formação”, fiéis, pastores e catequistas seguem suas rotinas sem  se preocuparem uns com os outros. É óbvio que os pastores, na grande maioria, não se perdem nos descaminhos do mundo, podendo-se dizer mais ou menos o mesmo dos e das catequistas, mas, os jovens de todos os sexos, só Deus sabe onde vão parar.

A Igreja Católica é depositária de um imensurável acervo doutrinário e litúrgico, que permitem-na exercer com total eficiência o múnus de ensinar, conduzindo os fiéis seguidores de Cristo à necessária santificação. A riqueza trazida ao longo dos séculos, desde os Padres da Igreja, também chamados de “Pais da Igreja”, passando por inúmeros e insubstituíveis documentos e encíclicas papais, mais o advento do Concílio Vaticano II, com todos os documentos, Constituições, reformas e encíclicas daí decorrentes, sem falar no Código de Direito Canônico, promulgado pelo então Papa João Paulo II em 1983, permitem que a Igreja tenha plenas condições de influenciar, de forma bastante positiva, a geração que está em curso, assim como as vindouras.

Entretanto, parece ser chegado o momento de fazer-se uma séria revisão nos métodos adotados na formação dos leigos e leigas e, principalmente, na formação de catequistas, homens e mulheres que, amorosa e voluntariamente, dispõem-se ao trabalho em prol da assembleia de fiéis. E, para tanto, é preciso ampliar, melhor dizendo, é preciso qualificar a formação destes homens e destas mulheres para que eles, não apenas catequizem, mas, de forma imperiosa, urgente e extremamente necessária, contribuam na formação de cristãos e de cristãs verdadeiramente comprometidos com a doutrina de Cristo, cuja depositária por excelência é a Igreja.

A propósito, é saudável uma leitura acurada dos cânones 779 e 780, do Código de Direito Canônico, expressos que são acerca da necessidade premente de promoção da formação contínua e aprimorada dos catequistas, "com o emprego de todos os meios, subsídios didáticos e instrumentos de comunicação que pareçam mais eficientes", a evidenciar o quão urgente é a atualização do que hoje entende-se denominar por "catequese".

A proposta que se faz, fruto da reflexão a que nos referimos no inicio deste texto, é a criação, onde ainda não existe, de Escolas de Catequese voltadas com exclusividade para a formação atualizada e teologizada dos cristãos e das cristãs interessados no compromisso com uma catequese verdadeiramente evangélica que, por incrível que possa parecer, não compreendem muito bem, sequer, as Sagradas Escrituras e, ainda, desconhecem por completo o Magistério da Igreja. Tanto que, quando ouvem falar em justiça para o pobre, o oprimido e o trabalhador da terra confundem, com frequência, com as ideologias político-partidárias defendidas, difundidas, experimentadas e fracassadas ao longo dos dois últimos séculos, sem saberem que a justiça ao pobre, ao oprimido e aos trabalhadores, seja da terra ou, atualmente, dos novos meios de produção, é matéria amplamente tratada em todo o Antigo Testamento e que a Igreja, inclusive, e por meio de sua doutrina social, é portadora de inúmeros documentos e encíclicas papais que tratam com exclusividade do tema, não se podendo deixar de lado os frutos do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). É preciso ter coragem para uma séria e saudável autocrítica e, na mesma esteira, para elaborar e concretizar projetos inovadores e totalmente voltados para a formação dos fiéis cristãos e cristãs deste já avançado século XXI. É mais do que necessário trabalhar pela formação, incentivada e estimulada, dos fiéis dispostos à catequese.

Há que ser compreendido que o fiel precisa, além da necessária, oportuna e saudável formação bíblica, teológica, cristológica e eclesiológica, também, de acompanhamento de toda a sua vivência nos meios familiares e religiosos, a fim de que ele possa, não apenas frutificar, mas, e, sobretudo, frutificar com qualidade reprodutiva, com capacidade para, com o seu exemplo vivo na órbita familiar, comunitária e social, com mais ação e menos pose e discurso, revelar a presença do Cristo ressuscitado, ou seja, que ele se apresente, sempre como agente ativo, atuante e replicador, ao invés do simples, elegante e jovial frequentador de missas e de solenidades religiosas.

Pelo menos uma Escola de Catequese em cada Diocese, com um corpo docente formado por mestres e doutores em teologia, em liturgia, em exegese bíblica, em patrística e em direito canônico, com cursos regulares com previsão de, pelo menos, 360 horas, ao fim das quais o(a) catequista estará bastante habilitado(a) para a catequese familiar, paroquial e/ou comunitária, assim como para o acompanhamento permanente dos novos e dos já catequizados.

Pensamos não haver mais espaço para os métodos de catequese adotados e praticados nos dias que correm, sob pena de um brutal afundamento institucional, e, pior, do aniquilamento da própria prática religiosa, fenômeno regulador da vida em sociedade, cuja ausência trará ainda maiores prejuízos a toda a coletividade já incendiada pelo fogo colateral do progresso.

Os instrumentos estão aí: redes sociais das mais diversas (com a capacidade de alcance e de penetração que, agora, mais do antes, o Brasil todo conhece); cursos on line muito bem estruturados, cujo sucesso tem sido relativamente demonstrado; além do fenômeno acadêmico do EAD (Ensino A Distância) que, na impossibilidade de outra forma de aprendizado, tem se revelado opção bastante útil e de resultados bem satisfatórios. Portanto, se falta alguma coisa, com certeza, não são instrumentos. O Apóstolo Paulo ficaria assombrado se visse como as redes sociais são praticamente excluídas da evangelização e da catequese do povo de Deus.

Este texto é privado e, obviamente, protegido pelo direito autoral. Entretanto, pode ser utilizado na divulgação integral do seu conteúdo, desde que seja respeitada a autoria.

Trata-se de uma reflexão cujo único objetivo é fomentar no meio eclesial o desejo e a coragem para a promoção de uma profunda alteração na forma e no modo de habilitar os responsáveis pela catequese dos fiéis seguidores de Cristo que, atualmente, são cooptados por inúmeras outras atrações que, diferentemente da Palavra de Deus, em nada contribuem para a salvação das almas. Que, no mínimo, seja objeto de reflexão e de aprimoramento das ideias expostas. Sinceramente, é o que se espera. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura, Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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