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abr 02

EDITORIAL DA SEMANA: DEUS DEVE SER ADORADO EM ESPÍRITO

ICONOGRAFIA DA SANTÍSSIMA TRINDADE

A FÉ SEM ÍCONES – DESAFIO PARA MUITOS CRISTÃOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Caminhamos sobre os escombros de um mundo em decomposição moral e existencial, no qual as verdadeiras leis que imperam são as que dizem respeito à riqueza, ao poder e, consequentemente, ao domínio dos fracos pelos fortes. Na verdade, este não é o mundo do final dos tempos ou do apocalipse bíblico, mas, o mundo dos homens que povoam a terra desde os tempos imemoriais.

E tal como antes, somente aqueles que têm fé alcançarão a plena liberdade e, com ela, a vitória final. Entretanto, e aí já falamos dos tempos atuais e, terrivelmente apocalípticos, quem, ainda, tem fé? E, para os crentes, em quem baseiam a fé que afirmam possuir? Esta última pergunta é de resposta fácil, quando se tratam de personagens. Uns dirão, creio em Deus; outros, em Jesus; outros, ainda, neste ou naquele santo ou em qualquer outra divindade. A verdade, porém, é que, até para os que afirmam crer em Deus, especificamente, como se fosse possível falar de Deus sem Jesus e sem o Espírito Santo, sempre trazem impressas nas mentes e nos corações certas imagens iconográficas que, de uma forma ou de outra, representam o personagem-objeto da fé declarada.

Ocorre que, a fé capaz de vencer o mundo com suas obscuras e tenebrosas estruturas, não pode ser baseada na imagem de um ancião de cabelos e barba brancos e longos, de idade incalculável, representando Deus-Pai, nem a de um jovem esbelto e forte, representando o Filho de Deus e, menos ainda, a de uma pomba branca, representando o Espírito Santo, que são as formas utilizadas por  uma grande parte dos cristãos, para a expressarem a fé que professam, com a qual afirmam estarem intimamente ligados ao sobrenatural.

A iconografia está, irremediavelmente, ligada às diversas religiões que, mundo afora, arrebatam mentes e corações, para não falar nas imensuráveis cifras. Poucas religiões, pouquíssimas, estão totalmente desvinculadas ou isentas do apelo iconográfico cujo objetivo principal é a representação física da divindade ou de quem por Ela é designado para agir.

No lado específico dos cristãos, é preciso lembrar, por exemplo, a quantidade de imagens de Jesus que transitam pelo mundo, salvo as exceções de sempre, sugerindo, ora um Jesus com traços de profunda santidade e com os olhos ligeiramente voltados para o alto, fruto de um período histórico dominado por uma visão mais ortodoxa, ora um Jesus com olhar penetrante, parecendo querer dizer alguma coisa para todo aquele que ousar encará-lo de frente.

Não bastasse a prática esvaziada da fé, têm-se multiplicado imagens da Santíssima Trindade com, é fácil imaginar, um ancião, um jovem e uma pomba, na tentativa de representarem fisicamente o Pai, o Filho e o Espírito Santo e, por mais que algumas lideranças religiosas possam negar, é fácil comprovar a verdadeira devoção que milhares de cristãos dedicam a estas imagens representativas, no afã de expressarem uma fé que, por fim, revela-se vazia, posto que direcionada à esmo.

Quando Jesus conversa com a mulher samaritana, junto ao poço de Jacó (Jo 4, 24), explica a ela a forma como Deus deve ser adorado, ensinando: “Deus é espírito e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram”, apesar de, em diversos trechos dos Evangelhos esse mesmo Jesus ter afirmado que quem o vê, vê Aquele que O enviou. No entanto, o culto e a adoração devem ser dirigidos a Deus na condição de espírito. Isso pode parecer óbvio para quem lê, no entanto, é óbvio, também, para quem vê o modo como milhares de cristãos dizem adorar ao Deus Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, tendo ao alcance das mãos ou dos olhos as imagens e, caso sofram algum tipo de crítica, sentem-se imensamente ofendidos, estendendo a ofensa à divindade.

São formas de expressão da fé que precisam ser combatidas porque o mundo está carente de orações fervorosas, consistentes e persistentes, dirigidas ao Espírito de Deus cuja visão é-nos impedida de ter e cuja representação física não podemos fabricar por não sabermos qual é a aparência do Espírito o que, de certa forma, conduz à prática da idolatria.

Muitas orações devem ser proferidas e dirigidas ao Deus Pai, ao filho e ao  Espírito Santo, rogando e clamando pelo socorro divino, diante de tudo a que estamos sendo submetidos no mundo, e nossas preces precisam sair do mais íntimo dos nossos espíritos para, sem qualquer intermediação visual ou imaginativa, chegarem a Deus que, como disse Jesus “vê tudo o que se passa” e saberá vir em nosso auxílio.

É chegada a hora, e talvez já esteja passando da hora, de alterarmos nossa forma de adoração e de culto, abandonando o recurso às imagens e abraçando o recurso direto ao Espírito de Deus que, de forma absolutamente sobrenatural e transcendente age no mundo desde a Criação.

Lembremo-nos de que Deus, quando decidiu falar com Moisés, valeu-se da sarça e, para caminhar com seu povo em direção à terra prometida, fez-se presente por meio da nuvem, de dia, e da coluna de fogo à noite (Ex 13, 21-22) sem, jamais, ter-se permitido aparecer ou ser representado por meio de qualquer forma humana.

Jesus, que é o Verbo de Deus encarnado, assumiu a forma humana, sim, porém, sem fotos, imagens ou desenhos precisos, não temos ideia de qual era a sua real aparência física.

É de se repetir: o mundo carece de orações! Precisamos fazê-las com as mãos limpas e estendidas e com o coração e o espírito totalmente livres de memórias e de imagens iconográficas, sob pena de estarmos dirigindo nossas preces para a divindade errada. Uma divindade que, a exemplo do que ocorria na antiga Babilônia, recebia culto, devoção e sacrifícios, porém, sem dar nada em troca, porque existia apenas nas mentes e nos corações de um povo pagão e idólatra.

Sem confundir as palavras e sem criar maiores discussões, refaçamos os caminhos das nossas adorações, orações e cultos e vejamos se estamos nos dirigindo ao Deus de Jesus, que é espírito e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram”, ou se estamos fabricando o deus ao qual encaminhamos nossos clamores e súplicas. Talvez aí possamos encontrar a origem das sucessivas faltas de respostas que, ingenuamente, atribuímos ao desinteresse de Deus pelos nossos sofrimentos. O que não é verdade, posto que Deus sempre ouve os nossos clamores e sempre vem em nosso auxílio. É preciso refletir e, abrindo as portas do nosso templo interior, falarmos diretamente ao Deus único e verdadeiro, Pai e Filho e Espírito Santo. Dessa forma, seremos ouvidos e socorridos a tempo. Pense sobre isso. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

     

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