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jul 02

EDITORIAL DA SEMANA: CONVERTER-SE É LIBERTAR-SE

RECONCILIAÇÃO

A CONVERSÃO E A RECONCILIAÇÃO LIBERTAM O HOMEM DO ESTIGMA DA CULPA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Vivemos, como muitos têm dito, tempos bastante difíceis! Tempos nos quais somos levados a caminhar acabrunhados, de um lado, com as nossas cargas pesadas sobre os ombros e, de outro, com as cargas pesadas dos outros que, não raro, respingam sobre nós. Queiramos ou não, admitamos ou não, vivemos sob a ditadura da culpa quando somos acossados pelas falhas e transgressões do dia-a-dia ou, pior, quando passamos os dias enumerando as falhas dos outros que, muitas vezes, nem nos atingem diretamente, mas, incomodam-nos sobremaneira. Observe-se quantas vezes ao dia repetimos os mantras relacionados com a culpa: “a culpa é do fulano”, “a culpa foi minha”, “a culpa é do governo”, “a culpa é do povo”, “minha mãe tem culpa nisso” ou, para aliviar, “eu não tive culpa” ou “eu não tenho culpa”. Ou seja, a questão da culpa permeia as nossas vidas e, de uma forma ou de outra, seja direta ou indiretamente, perturba o nosso sossego e a nossa estabilidade emocional e/ou espiritual. Quando acusamos, criamos transtornos e dissabores e, quando somos acusados, padecemos dos mesmos efeitos.

Por que fazer esta preleção sobre a culpa? Porque no combate à culpa existe uma arma bastante eficaz que, no entanto, não faz parte do nosso vocabulário diário: a conversão.

Conversão, como processo de retomada do caminho, não, como entendem alguns, como aceitação desta ou daquela profissão de fé ou de culto à divindade seguida pela religião A ou B. Não é necessário recorrer ao dicionário para elucidar o conceito pragmático da conversão. É necessário compreender! Compreender que a conversão, ao contrário do que muitos imaginam, e até pregam nos púlpitos das igrejas, é um processo que, uma vez iniciado, deve ser perseguido ao longo de toda a caminhada por este mundo. Existem, sim, muitas formas para a conversão do ser humano, haja vista a diversidade de caminhos a ele apresentada como solução para as suas demandas de sucesso, de felicidade, de crença, de esperança, de prosperidade etc.

Entretanto, a forma mais perfeita de conversão sugerida ao ser humano é aquela enraizada nas Sagradas Escrituras, e que tem em Jesus Cristo o indestrutível fiador, posto ser Ele a nova arca da aliança por meio da qual Deus convida o homem à reconciliação. E esta reconciliação não pode ser descrita como um mero acordo de vontades entre Criador e criatura, mas, e, sobretudo, na mútua entrega entre Deus e o ser humano, quando é esperado que o homem seja tão fiel quanto Deus o é, sabendo-se de antemão que não é bem assim que acontece. Porém, a proposta divina é esta: Deus, na pessoa de Jesus Cristo, assume a condição humana vindo até nós e convidando-nos a, também, irmos até Ele para o encontro decisivo, na concretização daquilo que até hoje é incompreensível para a maioria dos homens: o homem como imagem e semelhança de Deus. Somente neste, e a partir deste encontro decisivo, é que seremos um com o Todo. Compreender esta lógica, aceitá-la como verdade e colocá-la em prática no dia-a-dia das nossas vidas, significa adentrar no infindável processo de conversão. Pois, ir ao encontro do Pai, na pessoa do Filho e com Ele selar a nova e eterna aliança, formulada por Deus com vistas à salvação de todos os seres humanos, é virar as costas a tudo o que foi vivido até então, mudando totalmente a direção adotada como opção de vida.

Iniciar este processo, no entanto, significa também derrotar o domínio do estigma da culpa porque, conforme declarado de forma exultante pelo Apóstolo Paulo, Tudo posso naquele que me conforta” (cf. Fl 4, 13) e, Aquele que nos conforta, conforta-nos em tudo, inclusive, nos pecados e nas transgressões, fontes primárias da culpa.

Por esta razão, é tão significativo e tão necessário compreender a importância da conversão como rito de passagem e de adesão ao corpo místico de Cristo que encontra na Igreja a sua melhor expressão. Igreja, diga-se de passagem, não como instituição humana, mas, como instituição divina cuja cabeça é o próprio Cristo.

Converter-se, portanto, é, em primeiro lugar, aceitar a reconciliação proposta por Deus no mistério da encarnação, quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1, 14) e, em seguida, ser fiel ao novo caminho escolhido, porque, conforme está dito no Livro do Deuteronômio (Dt 7,9), Deus é fiel e espera que cada um de nós também seja.

A partir desta conversão-reconciliação nossos olhos espirituais são abertos para o conhecimento e o reconhecimento da verdade e, conforme ensinado por Jesus, a partir deste conhecimento, seremos verdadeiramente livres (cf. Jo 8, 32), e esta liberdade é para sempre porque “se o Filho vos livrar (da escravidão do pecado) sereis verdadeiramente livres” (cf. Jo 8, 34-36) e, então, já não estaremos mais sob o jugo da culpa que, ou por nós mesmos ou por intermédio dos outros, tanto nos pressiona, atormenta, incomoda e impede o nosso progresso espiritual.

Reflita sobre tudo isso e, se for o caso, converta-se enquanto ainda é tempo, pois, se como dizem, a vida é mesmo bela, esta mesma vida em Cristo, com Cristo e por Cristo é indizivelmente bela e, o melhor de tudo, é eternamente bela! Boa sorte, e seja feliz convertido para Cristo!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador e um cultor do silêncio.
   

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