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set 17

EDITORIAL DA SEMANA: CAMINHAR EM SILÊNCIO

CAMINHAR EM SILÊNCIO

CAMINHAR EM SILÊNCIO:  O SEGREDO PARA A FELICIDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O tema-título envolve dois processos distintos de vida que, necessariamente, devem ser vividos na unidade: caminhada e silêncio! A caminhada exige preparo, treino, força, fé, coragem e determinação. Muitos, saem afirmando que estão em caminhada, mas, não muito tempo depois, caem e deixam-se abater porque a caminhada é dura e difícil. Ela envolve perdas e entregas e, no início, poucos são os que aceitam estas regras de bom grado. Resistem o quanto podem, debatem-se furiosamente, rebelam-se contra tudo e contra todos. Não aceitam perder e recusam-se às entregas. Aí, vem a dor, a desilusão, a amargura, tudo em decorrência das feridas advindas da caminhada mal engendrada, mal assimilada e iniciada por quem não detém os necessários treino e preparo, acima referidos.

A boa notícia, é que a caminhada é longa e, portanto, permite que o caminhante vá aprendendo com o passar do tempo, ainda que a custo de muitos dissabores. Muitos, sábios que são, aprendem rapidamente os meandros do caminho com suas ameaças, acidentes e sutilezas e, assim, sofrem bem menos. Outros, no entanto, levam mais tempo no gueto da resistência e, por serem tão implacáveis consigo próprios, acabam ferindo-se de forma bastante intensa. Mas, considerado o longo percurso a que já nos referimos, sempre há tempo para a recomposição e para o rearranjo do trajeto e da trajetória.

Aquele ou aquela que, ao longo da caminhada, compreende, por si mesmo ou por outrem, a importância e o valor do silêncio da alma e do coração, consegue desvencilhar-se de muitas armadilhas, porque, o silêncio atrai Deus e, vindo, Ele começa a remodelar toda a estrutura daquela vida, até então, bruta, dura e até mesmo cruel, que não deixa margem para que o ser se sobreponha ao ter, ao expor-se, ao vangloriar-se, ao exibir-se, destruindo-o na origem. Entretanto, para quem adere ao silêncio, e mais ainda, para quem com ele já tem alguma experiência e intimidade, a situação muda bastante de configuração.

Desta forma, a caminhada forjada em perdas, em entregas e na vivência com o silêncio – dos olhos, dos ouvidos, da língua e do coração – começa a revelar uma frutificação que, embora provoque lágrimas, traz a sensação de vitória. Isto porque, é no silêncio que Deus se aproxima para fazer-se ouvir pelo ser humano, e desta voz vem a direção a ser seguida. Assim, o caminhante que tem em si o mapa do caminho a ser percorrido, parte em silêncio e, nestas condições, ultrapassa todos os limiares da existência, até o encontro face a face com o Criador.

Não é uma proposta fácil! Trata-se de modelo de vida bastante difícil. Um modelo que, segundo o Cardeal Robert Sarah – Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano – somente os monges e as monjas é que conseguem vivê-lo na forma mais aperfeiçoada, tamanhos os sacrifícios exigidos.

Entretanto, depois de longo trecho já percorrido, parece haver certa convicção de que fora da caminhada ordenada e vivida continuamente, o que predomina entre os seres humanos não é uma caminhada, propriamente dita, mas, um andar em círculos que, normalmente, vai do nada a lugar algum e, finalmente, culmina com o fim desta existência que, para muitos, é o que Deus fez de melhor para o ser humano. Acreditam nisso, porque, na andança em círculos e movidos por toda espécie de ruídos – sonoros, visuais e emocionais – sem nenhuma chance para o necessário silêncio, não ouvem nem a si mesmos, nem a Deus e, deste modo, passam pela vida e, quando dão-se conta, chegam na reta final sem compreenderem o que chamam de mistério da morte. É mistério, sim, mas, mistério a ser desvendado por quem viveu na plenitude desejada pelo Criador, caminhando, perdendo, entregando e entregando-se e ouvindo a voz que, continuamente, fala ao coração do ser humano que impõe a si e à própria vida o silêncio.

Quem afirma ser caminhante, acreditando que basta viver a rotina diária, com todas as suas peculiaridades, atrações, afeições e apetites, sem entregar-se a si mesmo nas mãos de Deus e sem doar-se em favor de quem estende-lhe as mãos sedentas, não sabe o que é caminhar!

Quem se pretende caminhante, defendendo a justiça humana, baseada na vingança da lei dos homens, e acreditando que o céu e o inferno são aqui mesmo, onde paga-se pelos atos praticados, não conhece o caminho.

E, quem se cala para ouvir o que o mundo tem a dizer, concordando com ele em tudo e agindo segundo as suas prescrições, desconhece o ponto de chegada e, por esta razão, chama a morte de “mistério”.

A caminhada, para ser bem sucedida, deve ser percorrida no silêncio. Não no silêncio apenas da língua, mas, também, no silêncio dos olhos, dos ouvidos, do corpo e do coração. Um silêncio que é muito mais preparatório do que propriamente uma simples condição de vida. Preparatório para Deus, que quer atuar em toda a existência do ser humano, mas, que só consegue fazê-lo quando o ambiente é propício. Os ruídos do mundo, com sons estridentes e falatórios eletrizantes, com imagens desvirtuadas dos caminhos da verdade e da vida e com sugestões que povoam as mentes de forma bastante prolongada, a induzirem os seres humanos para lugares totalmente afastados da verdadeira e duradoura paz e da eterna felicidade, são impeditivos da presença do Espírito de Deus no templo sagrado situado no interior de cada ser humano.

Assim, quem quer ser verdadeiramente caminhante, no rumo e na direção do Eterno sendo, inclusive, por Ele guiado, deve estar preparado para as pedras e para os espinhos ao longo da jornada; deve perder-se no todo, que é Deus e deve entregar-se total e absolutamente Àquele que é tudo em todos. Ao agir desta forma, inevitavelmente, terá o silêncio por companheiro, pois, é uma caminhada íntima e pessoal na qual poucos querem arriscar os bens temporais conquistados neste mundo. E, nesta caminhada com este silêncio enaltecedor, o Espírito de Deus é a grande luz, o vento suave e o bálsamo refrescante capazes de transformar esta vida efêmera e sofrida, numa maravilhosa estrada para a eternidade, cuja passagem definitiva deixa de ser mistério, porque é feita ao lado Daquele que é o caminho, a verdade e a vida. Deste modo, a caminhada e o silêncio são ofertas a serem apresentadas diante Daquele que, de braços abertos, espera que, com Ele, possamos encontrar a porta de entrada para o Reino que está preparado para todos nós, desde o início dos tempos.

Fechar a boca, os olhos e os ouvidos e abrir o coração é o passo inicial, e decisivo, para quem pretende ser verdadeiro caminhante, pois, quem caminha pretende chegar e, para chegar, precisa ouvir a voz Daquele que nos conduz, e que só se faz ouvir quando nada mais ocupa o seu espaço único e sagrado na vida de cada um de nós.

Este, como todos os demais, é apenas mais um singelo convite à reflexão para a vida em plenitude. Faça a sua reflexão e verifique como está a sua caminhada. Em que condições você está caminhando, para frente, na direção de Deus, ou, em círculos, atendendo aos chamados estonteantes de um mundo que, tudo pode oferecer, porém, não pode assegurar a permanência de nada? Reflita. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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