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out 09

EDITORIAL DA SEMANA: APROXIMAR-SE DE DEUS EXIGE HUMILDADE

CAMINHAR DESCALÇO

COMO DEVO ME APRESENTAR DIANTE DE DEUS? –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quando Moisés viu a sarça ardente e, admirado, aproximou-se dela para ter certeza do que se tratava, ouviu a voz de Deus exortando-o: “Não te aproximes daqui: tira as sandálias de teus pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex 3, 5).

Para a maioria dos mortais, Deus tem Sua morada no Céu, onde tudo é santo e sagrado. No entanto, é o próprio Deus quem ordena a Moisés para tirar dos pés as sandálias, por estar pisando em uma terra santa. O solo é santo, a sarça é santa, o fogo é santo, Deus é santo. Diante de todo este cenário, o homem deve curvar-se humildemente para que sua voz possa ser ouvida por Deus. Observe que a exigência dirigida a Moisés, não é para ter acesso e ouvir a voz de Deus, mas, para simplesmente, poder falar com Ele.

Não se fala com Deus de uma forma qualquer, sem qualquer preparo ou despojamento. Tirar as sandálias, pisar na terra, sentir o elemento árido sob a planta dos pés, sentir a vida pulsar no centro do chão.

Deus não criou o ser humano vestido ou calçado e, no entanto, muitos seres humanos julgam seus semelhantes pelas roupas que usam, pelo calçado que calçam e por todos os adereços que ornamentam o corpo humano.

Deus quer o ser humano despojado: das sandálias, da gravata, do paletó, da toga, do uniforme, dos títulos e dos cargos que ocupa, das roupas de marca, dos calçados finos e importados, das meias de puro nylon ou de tecido ainda mais sofisticado, da carteira que hospeda dinheiro e cartões de crédito, do carro, da mansão. Tudo isso traz confiança, sensação de potência, de respeitabilidade, de honorabilidade e de importância para os homens.

Deus, no entanto, quer vê-los despojados, tementes e confiantes exclusivamente no Criador. Quantas vezes vemos carrões importados estacionados nos pátios das igrejas, a revelar que pessoas de alto padrão social e monetário estão presentes e, não raro, estão vestidas e calçadas com roupas e calçados de grife, relógios vistosos, colares, brincos e pulseiras de ouro. Tudo meticulosamente usado para revelar o status. Algumas destas pessoas fazem o maior gesto de humildade que se possa esperar delas: ajoelham diante do altar, fazem o sinal da cruz e se dirigem para a fila da comunhão, como a demonstrar que até se sujeitam a venerar o santo nome do Senhor. Na hora do ofertório fazem questão de, disfarçadamente, lançar uma nota mais graúda no cesto que é passado diante de si, como a demonstrar que, além da reverência, cumprem o sagrado dever de contribuir financeiramente para com a instituição, mas, seus corações estão voltados para o trabalho, para a produção de riqueza, para o acúmulo de bens e de dinheiro, para os ganhos a serem auferidos por conta do trabalho, do sacrifício e do sofrimento alheios, sem se importarem com o que se passa com o outro, com aquele de quem sugam a força, o intelecto e a saúde, para se auto-protegerem no mundo da fama, da glória, do prestígio, da imponência e da falsa ilusão do poder representado por títulos, cargos e outros adereços corpóreos. 

E o pior de tudo isso é que, quanto mais importante a pessoa se apresenta, mais os eclesiásticos e seus auxiliares diretos e indiretos, cortejam tais pessoas, como que a confirmarem a importância que têm para Deus, para a Igreja, para a sociedade e para a comunidade, nesta ordem, alimentando a ilusão e mantendo seus ganhos materiais e financeiros. Por que conflitar com o rei, se é o rei que mantém a corte?

Deus, no entanto, não se cansa de repetir: “tira as sandálias de teus pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex 3, 5), explicitando para o ser humano a necessidade do despojamento completo, pois, o pisar no chão, tateando pequenas pedras com os pés, diminui a marcha do celerado, daquele que anda com pressa, sem olhar para quem está ao seu lado ou à sua frente, passando por cima de tudo e de todos, como se fosse um trator mecânico. Tirar as sandálias é tirar a imponência, a vaidade, o orgulho, a soberba e a sensação de superioridade daquele que pisa com força sobre a terra, sobre a grama, sobre as flores e, sobre o outro.

É sempre saudável recordar a letra da memorável canção de Gilberto Gil: "Se eu quiser falar com Deus":

“Se eu quiser falar com Deus

Tenho que ficar a sós

Tenho que apagar a luz

Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz

Tenho que folgar os nós

Dos sapatos, da gravata

Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data

Tenho que perder a conta

Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus

[...]

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que me aventurar

Tenho que subir aos céus

Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus

Dar as costas, caminhar

Decidido, pela estrada

Que ao findar vai dar em nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Do que eu pensava encontrar”

Despojar-se de tudo, aventurar-se, subir aos céus sem cordas pra segurar, dizer adeus, dar as costas, caminhar decidido pela estrada que, ao final, vai dar em nada, nada do que eu pensava encontrar, porque sou criado à imagem e semelhança, mas, o Criador é incriado e em nada é semelhante a mim, pobre, carente, miserável e mortal criatura.

Assim, caso queira falar com Deus, ajeite-se primeiro, não, diante do espelho da vaidade e da prepotência, mas, despojando-se dos seus caprichos, dos seus medos, dos seus sonhos, do pretenso saber, do auto reconhecimento das suas potências, da aparência física e social, do aparente poder e importância que a roupa, o cargo, o calçado, o dinheiro ou os bens lhe trazem, ainda que de forma efêmera. Lança tudo isso para longe de si e aproxime-se da sarça ardente que é o seu coração, de onde Deus fala e é ouvido, porque, caso não saiba, o coração do homem é solo sagrado que o próprio homem não sabe respeitar, mas, que Deus respeita e sempre se faz presente para lembrar esta sacralidade que, afinal de contas, foi criada por Ele.

Reflita sobre este texto e, se se julgar capaz, tire as sandálias dos pés e se aproxime da sarça ardente. Deus está pronto para te ouvir, desde, é claro, que te veja totalmente despojado e confiante Nele, não em si mesmo, nem nos adereços que ornamentam o seu corpo,  seu bolso e sua vida. Reflita e avance confiante, Deus espera por você. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

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