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fev 12

EDITORIAL DA SEMANA: A FACE HUMANA DE DEUS

DEUS PAI E FILHO

UM DEUS QUE SE ASSEMELHA AO HOMEM –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Segundo o Livro do Gênesis, Deus, deliberando com a corte celeste, disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). A narrativa de Gn 2, 7, que é mais antiga, fala que “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente”.

O homem, este ser racional, totalmente diferente do restante da criação, recebeu do Criador uma alma dotada de atributos intelectivos e sensitivos capazes de torná-lo superior a todos os demais seres criados, a ponto de, nas palavras do Criador, poder presidi-los (Gn 1, 26).

Entretanto, para Deus não bastou criar o homem à sua imagem e semelhança, justamente porque, ao ser afastado do paraíso em decorrência da desobediência, o homem perde o contato direto e visual com o Criador, perdendo, da mesma forma a capacidade de encontrá-lo e, portanto, de reconhecê-lo. Daí a enorme dificuldade da humanidade pós-Adão e Eva em perceber a magnificência de Deus em toda a sua plenitude, dando origem, não apenas à descrença na divindade, mas, e pior, a uma imagem totalmente distorcida e falsa de Deus.

A distorção acerca da imagem de Deus, tido, visto e apresentado como um Deus-guerreiro, vingador e vingativo, capaz de impor castigos terríveis à humanidade pode, até certo ponto, ter servido de comparação do Deus único de Abraão, de Isaac e de Jacó, com os deuses da antiga Mesopotâmia ou mesmo da Babilônia, de modo a fazer crescer a idolatria tão combatida pelos profetas e, também, um dos principais motivos para a desgraça da casa de Davi, dividida em dois reinos após a morte de Salomão e, posteriormente, enviada para o longo período do exílio.

A incompreensão e a distorção sobre Deus chegou a tal ponto que, pela boca do profeta Isaías, o Senhor rejeita todos os sacrifícios oferecidos pelos homens, assim como o jejum, exortando o povo a fazer penitência, a praticar o bem, a procurar a justiça porque, diz o Senhor: “Quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos. Ainda que multipliqueis a oração, eu não ouço: Vossas mãos estão cheias de sangue” (Is 1, 15). Este mesmo Deus, no entanto, é amoroso e compassivo e, ao mesmo tempo em que se volta contra a infidelidade, a incredulidade e a idolatria do povo, afirma: “Aprendei a fazer o bem! Procurai a justiça, corrigi o opressor. Fazei justiça ao órfão, defendei a viúva. Vinde e discutiremos – diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, ficarão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, ficarão como lã. Se concordardes em obedecer, comereis as coisas boas da terra” (Is 1, 17-19), como a dizer: vocês estão fazendo tudo errado; não Me compreendem e não conseguem entender que eu quero o bem máximo para todos vocês. Parem de oferecer sacrifícios inúteis e desnecessários. Vivam no amor e na justiça!

Entretanto, na plenitude dos tempos (Gl 4,4), o Verbo de Deus encarna-se no seio da Virgem Maria e revela ao mundo a face que nem a Moisés, no alto da montanha, foi permitido ver: a face do Deus-humano-Deus, apresentando, também, o Espírito Santo, no insondável mistério da Santíssima Trindade.

É a partir deste evento sem igual na história da humanidade que Deus, outrora apresentado e compreendido como o Todo-poderoso Senhor dos Exércitos, apresenta-se diante de nós, exatamente, como um de nós: simples, pobre, frágil, sofredor e sujeito a tudo e a todos, a indicar para nós o único e verdadeiro caminho: Jesus.

A presença de Jesus é a presença do Pai e Deles o Espírito Santo. A partir desta revelação, e desta compreensão, surge diante de todos e de cada um de nós, um Deus muito diferente daquele sobre o qual havíamos formado opinião totalmente distorcida. O Verbo de Deus encarnado, cuja humanidade é assumida pela Segunda Pessoa da Trindade representa o bem, o amor, a misericórdia e a compaixão a que todos nós somos convidados a aderir de corpo e de alma porque, se o Pai e o Filho são “um”, com o Espírito Santo, o plano salvífico de Deus importa que sejamos, também, “um”, com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.

Quando Jesus afirma “Eu vim para que todos tenham vida, e tenham-na em abundância” (Jo 10,10), Ele quer dizer que nossa vida somente será abundante (ilimitada) se totalmente integrada a Ele, ao Pai e ao Espírito Santo. Isto fica muito claro, quando Jesus faz as seguintes afirmações: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) e, mais adiante: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23).

Portanto, diferentemente da crença difundida entre muitos cristãos, o nosso Deus, o Deus da vida, e da vida em abundância, é Aquele que caminha conosco sempre, sofrendo, chorando, sorrindo, perdendo e vencendo e não, Aquele Deus Todo-poderoso cujo trono fica lá em cima, no mais alto dos céus, para onde Jesus foi, também, e está sentado ao lado do Pai, como se fossem duas pessoas distintas, olhando para baixo, de forma estática, aguardando o desenrolar da nossa triste história.

Precisamos redescobrir o Deus que nos criou, que sempre cuidou, e que ainda cuida, de nós e mais: que veio até nós, assumindo a condição humana de forma plena, sem abrir mão da Sua divindade, porém, fazendo-se semelhante a nós em tudo, menos no pecado, simplesmente porque é impossível para Deus pecar contra si mesmo. O Filho do Homem é, também, o filho da humanidade que, mantendo íntegra a Sua divindade, faz-se e vive como um de nós, conhecendo profundamente todos os nossos percalços, sofrimentos, angústias e dificuldades. Por esta razão Ele, que conheceu na própria carne todas as nossas mazelas e nossas misérias, não é o Deus vingador e vingativo de quem, outrora, ouvimos falar.

Ao olharmos para Esse Deus, pela face de Jesus e pela luz do Espírito Santo, identificamos Nele a nossa própria imagem refletida porque, se, por um lado, fomos criados à imagem e semelhança Dele, por outro, Ele próprio assemelhou-se a nós ao se encarnar no seio da Vigem de Nazaré para, vivendo a condição humana de forma plena, lançar sobre todos nós oceanos de bênçãos, perdoando os nossos pecados e as nossas transgressões e colocando-nos no verdadeiro caminho para a salvação e para a vida eternamente abundante, conforme prometido por Ele.

Precisamos corrigir o nosso olhar, acerca daquela imagem distorcida que nos foi apresentada como sendo a de Deus, passando a vê-Lo, a admirá-Lo e  a reverenciá-Lo em toda a Sua beleza e divindade, mas, também, em toda a Sua humanidade, da qual somos descendestes e herdeiros, convidados para o banquete celestial em permanente união e comunhão com todos os irmãos, as irmãs, os santos, os anjos e com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.

Não estanque a sua visão na leitura deste simples texto, mas, aprofunde o estudo, a pesquisa e a leitura da Bíblia, de modo a encontrar-se com o Deus único e verdadeiro; o Deus que, para estar permanentemente ao nosso lado, assemelhou-se a nós, no mistério da Encarnação e que, para nos integrar totalmente a Ele, trouxe-nos o mistério da Santíssima Trindade por meio da qual somos convidados à unidade e à comunhão, a fim de realizarmos plenamente o desejo de Jesus manifestado ao Pai nas últimas orações: “Eu não rogo somente por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio da tua palavra; para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 20-21). Reflita sobre tudo isto e transforme sua vida para sempre, credo absolutamente no Deus único e verdadeiro, que é Pai, é Filho e é Espírito Santo e que está, não no céu, apenas, mas, também, em nós e no meio de nós, convidando e querendo que com Ele vivamos e reinemos para sempre. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura estuda Teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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