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jun 04

EDITORIAL DA SEMANA: A DIFÍCIL INTERAÇÃO ENTRE OS SERES HUMANOS

CONVIVÊNCIA

AS DIFÍCEIS RELAÇÕES E INTERAÇÕES HUMANAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Os humanos são os seres mais complexos que existem porque, sejam quem forem – pais, irmãos, cônjuges, amigos, colegas, vizinhos, adversários, amantes ou amados – são capazes dos mais diversos comportamentos e das mais variadas atitudes, deles podendo ser esperada qualquer coisa. Daí a necessidade de estarmos sempre atentos nas necessárias e insubstituíveis relações que mantemos, nunca nos esquecendo de que somos todos iguais, porque, da mesma essência, capacidade e complexidade, sempre estamos interagindo uns com os outros.

Os seres humanos são dotados de capacidade, de competências e de carismas que revelam-nos seres divinamente especiais, com carta branca do Criador para administrar e gerenciar toda a criação. No entanto, dada a complexidade de potências com as quais somos dotados, somos capazes de agir, de falar, de omitir, de pactuar, de corromper e de sermos corrompidos, de amar, de odiar, de fazermos o bem ou o mal, de acolhermos ou de rejeitarmos, de construirmos ou de destruirmos, da forma mais natural possível. Sempre em nome de uma “liberdade” e de um “livre arbítrio” que não são apenas teses filosóficas ou teológicas não, são realidades nas quais estamos envolvidos.

E, deste emaranhado de atributos com os quais fomos premiados pelo Criador nasce a tremenda dificuldade da mútua convivência e da necessária interação. Querer, quando o outro não quer; pensar, quando outro não concorda; concordar, quando o outro discorda; silenciar, quando outro espera uma palavra; falar, quando o outro quer silêncio; esperar do outro o que ele não quer ou não tem condições de dar; dar ao outro o que ele não aceita receber; ajudar, quando o outro dispensa ajuda; omitir-se, quando o outro espera uma atitude; defender, quando o outro quer acusar; apontar erros, quando o outro quer minimizá-los ou até mesmo escondê-los; trabalhar, quando outro quer fazer corpo mole; descansar, quando o outro impõe o trabalho; comprar, o que o outro não quer vender; vender, o que o outro não tem condições de comprar; sorrir, quando o outro quer chorar; chorar, enquanto o outro quer sorrir; preocupar-se com o que o outro sequer dá atenção, e muitas outras situações.

São episódios que, no dia-a-dia da vida vão desafiando nossa capacidade de conviver com os nossos semelhantes, sem desconsiderá-los, desprezá-los e com eles estar em permanente confronto ou conflito. E mais: na lógica cristã, tendo que amarmos uns aos outros, como o Cristo nos ensinou com exemplo de sangue.

E quando se fala no Cristo, a visão acerca do “outro” tem que ser modificada, porque Ele, Jesus, soube melhor que qualquer um de nós, olhar para o outro e aceitá-lo exatamente como ele é, com suas virtudes, defeitos, carências, fraquezas e até mesmo maldades. Ele soube perscrutar a alma de todos os que O cercavam e que com Ele caminhavam e deixou-nos o exemplo. Daí, a necessidade primária que temos de, em primeiro lugar, fazer como Jesus fazia: olhar para o outro, bem no fundo dos olhos. Examiná-lo por dentro, através do olhar profundo e do silêncio. É deste comportamento, aliado da pausa no falar e do não agir de forma intempestiva e açodada, que nasce a compreensão acerca daquele ou daquela que está diante de nós. Seja quem for, venha com as armas que vier, aja da forma que agir. Jesus fez isto de forma admirável quando, diante do sinédrio, observou aqueles clérigos “decidindo o seu destino” e acusando-O de todas as formas: calou-se e observou a contenda entre eles. Percebeu claramente, que de nada adiantaria fazer discursos, pois, ao admitir expressamente ser o Filho de Deus, viu o sumo sacerdote rasgar as vestes, em sinal de desespero diante do que, para ele, era a maior de todas as blasfêmias.

Olhar para o outro, no fundo dos olhos, é enxergá-lo no fundo da alma. Por esta razão, muitas pessoas quando percebem que estão sendo olhadas no fundo dos olhos, abaixam a cabeça ou desviam o olhar para a direita, para esquerda, para cima ou para baixo, porque a alma logo, logo, denuncia que está sendo exposta de forma integral. Ao assim procedermos, não estamos querendo desvendar segredos, não. Estamos, apenas, observando com que tipo de pessoa estamos lidando para, a partir de então, tomarmos todas as precauções possíveis. Primeiro, resguardando-nos das atitudes explosivas e das notórias demonstrações de impaciência. Depois, estamos nos preparando para agir e para falar de modo a não perturbar aquele ser já exasperado, perturbado, indignado, revoltado, estressado, amargurado, decepcionado ou desiludido, grosseiro e até mesmo violento que está à nossa frente.

É preciso olhar para este semelhante da forma mais tranquila possível, aceitá-lo naquele estado em que ele se revela para nós e, de forma equilibrada tentar descobrir do que ele está precisando naquele momento: de silêncio, de paz, de uma palavra amiga, de força, de coragem, de sugestões, enfim, tentar dar a ele exatamente o que ele revela estar precisando ou “exigindo”, sem contendas, conflitos ou confrontos. Mais uma vez, Jesus ensina: “Ouvistes o que foi dito: “olho por olho, dente por dente”. Eu, porém, digo-vos que não resistais ao que é mau; mas, se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra; e ao que quer chamar-te a juízo para te tirar a túnica cede-lhe também a capa” (Mt 5, 38-40).

A proposta de Jesus, muitos dirão, é difícil de ser seguida. Pode ser sim, porém, é a única capaz de aperfeiçoar a nossa relação com os nossos semelhantes, de modo a que consigamos passar por esta prova de fogo a que somos submetidos a partir do momento em que aqui chegamos.

Lidarmo-nos uns com os outros é desafio para toda a vida e, feliz daquele ou daquela que consegue aperfeiçoar-se cada vez mais, tomando o exemplo de Jesus. Pois, assim, conseguirá compreender que faz parte de um todo no qual todos somos iguais, com virtudes, defeitos, carências, carismas, competências e, também, com o contrário de tudo isso. Daí decorrer que precisamos aceitar, compreender e ceder, porque, também nós precisamos ser aceitos, compreendidos e acolhidos com as nossas mais diversas fraturas espirituais, morais, sociais e, digamos, existenciais.

Este texto, como todos os demais que escrevo, é mais um convite à reflexão. Aqui, não estão sendo expostos verdades, teses ou dogmas, mas, o resultado de reflexões que o leitor e a leitora, também, podem e devem fazer, na busca por uma convivência mais humanizada e mais cristianizada com os semelhantes, tendo sempre em vista que a promessa de Jesus, como plano do Pai, é que vivamos eternamente juntos, no Reino que já está preparado para todos nós. Se não conseguirmos viver juntos aqui, como será na eternidade? Reflita e tire suas conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.
 
   

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