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set 24

EDITORIAL DA SEMANA: A BÍBLIA APONTA DIREÇÕES

BÍBLIA - CONJUNTO DE NARRATIVAS

A BÍBLIA É UM CONJUNTO DE NARRATIVAS PROATIVAS

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é pequeno, nem insignificante, o número de pessoas que fogem da intimidade e da leitura da Bíblia, sob os mais diversos argumentos. Mas, o argumento que mais se ouve é: “é um livro muito complicado”. Outro argumento bastante difundido, também, é: “a Bíblia é um relato de guerras e de mortes, onde Deus aparece como terrível vingador”. E por aí vai. Cada pessoa que não possui o hábito de ler as Sagradas Escrituras, apresenta argumentos por meio dos quais tenta se justificar. Pode ser, até, que alguém, realmente, por força de tais argumentos evite, ou até mesmo deixe de ler a Bíblia.

Entretanto, faço parte do imenso grupo de pessoas que encontram na Bíblia a resposta do passado, para o presente e para o futuro, simplesmente porque a Bíblia, ao contrário do que muitos afirmam, não é apenas um livro, mas, um conjunto de livros ordenados para uma finalidade única: revelar o plano salvífico de Deus! Plano que é executado em duas etapas: a primeira, por meio da Revelação contida no Antigo Testamento e, a segunda, por meio de Jesus Cristo, que é a própria salvação prometida por Deus.

Este conjunto de livros não foi escrito por uma única pessoa, de uma determinada religião, numa determinada época, em face de uma realidade vivida naquele momento. Ao contrário, tratam-se de livros escritos por diversas mãos e em épocas muitos diferentes, originadas em tradições bastante distintas que, não obstante, em alguns casos, recordam e escrevem sobre os mesmos fatos.

O leitor e a leitora da Bíblia não devem, em primeiro lugar, assustarem-se com o que leem. É preciso, sempre, avaliar se o escrito sob exame descreve fato real ou se, mítico, aponta para algo muito maior. Em resumo, a Bíblia é um conjunto de narrativas que, independentemente de serem reais, ou não, têm por finalidade indicar o caminho para os seres humanos em cada uma das etapas da sua existência e da sua longa caminhada.

Assim, por exemplo, vamos encontrar no Livro do Gênesis, a narrativa acerca da criação. Esta narrativa apresenta um conjunto fabuloso de atividades executadas por Deus, num tempo recorde de “seis dias”. É espantoso pensar que, mesmo Deus, que não é nenhum mágico, possa ter trabalhado tanto durante um período de tempo tão curto, produzindo coisas extremamente fantásticas em, apenas, “seis dias”, reservando o “sétimo dia” para o descanso, como se fosse possível que Deus ficasse cansado! Bem, pensará o leitor racional, se Deus não é mágico, como pode ter sido tão rápido e eficiente na execução de obra tão monumental?

Uma outra questão que desafia a lógica humana é a que está relacionada com a criação do primeiro homem. Deus decidiu criar o ser humano à sua imagem e semelhança, concedendo-lhe o domínio absoluto sobre toda a criação e, depois, por causa de uma simples fruta (seja maçã, pera ou melancia), expulsa sua criatura daquele oásis de paz, de riqueza e de beleza. Como pode ter acontecido um fato como este, tão banal, em princípio?

Depois, mais adiante, o Criador, sem ter dado nenhuma lei para o ser humano, protege Caim contra eventuais vingadores, por ter assassinado o irmão Abel, justamente, o mais querido e amado por Deus.

Em uma outra narrativa, vamos encontrar Moisés, valendo-se apenas de um cajado, abrir o Mar Vermelho, para a travessia de uma multidão de mais de mil pessoas, que fugia, com pressa, de um faraó alucinado, poderoso e vingativo, determinado a reaver tudo o que perdera para Deus.

E, em mais uma de uma série infindável, a narrativa da história de Jó. Imagine só: Deus, ao receber seus anjos no céu recebe, também, satanás que vai até lá justamente para falar com o Criador sobre o servo Jó, fiel e devoto que, com a anuência de Deus, torna-se presa fácil de satanás que, além de tirar tudo o que o pobre servo possuía, lança sobre ele uma terrível lepra que o apodrece do alto da cabeça até a ponta dos pés.

Todas estas narrativas, independentemente de serem, ou não, verdadeiras, apontam para direções certeiras. Quer-se dizer o seguinte: as narrativas bíblicas possuem muito mais importância e significado do que o que elas relatam especificamente. Melhor dizendo: Deus, certamente, não criou o mundo em seis dias como nós os conhecemos. Seis dias contados de segunda-feira a sábado, descansando no domingo. Não! O que a narrativa da criação quer deixar claro, é que Deus é Senhor absoluto do tempo e do espaço e que, se a divindade trabalha para atingir seus objetivos, os homens devem agir de igual forma. E mais: nesta narrativa da criação está embutida, também, a questão do trabalho extenuante a que os homens eram submetidos, quando ela foi escrita. É uma forma de mostrar que, se o próprio Deus reserva para si um dia para o descanso, é lícito que os pobres mortais gozem de idêntico reconhecimento.

A situação vivida no paraíso, também, é uma narrativa que aponta para algumas questões bem definidas: uma delas, está relacionada com as consequências de todos os atos que praticamos e que, infelizmente, algumas pessoas, chamam de “castigo de Deus”. No caso, o Criador adverte a criatura para não comer determinado fruto, indicando-lhe a consequência da desobediência: “em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17). Observe-se que Deus não aponta como consequência a expulsão do paraíso, mas, a morte, que decorre da perda do estado de inocência. Não, de uma inocência moral, mas, de uma inocência formal: agir contra a ordem de Deus. E, a partir daí, vamos encontrar nas narrativas bíblicas uma infinidade de situações nas quais os seres humanos padecem muito, em decorrência direta de outras tantas desobediências e transgressões aos preceitos divinos. E, se olharmos para o nosso entorno, vamos identificar inúmeras situações vividas pelos nossos contemporâneos humanos. A expulsão do paraíso é um estilo literário próprio para designar a impossibilidade de permanência daqueles que já estão maculados pela maldade (desejo de ser igual a Deus), em um ambiente absolutamente puro e imaculado.

Ao assegurar a Caim que aquele que o matasse, seria castigado sete vezes mais, colocando nele um sinal distintivo (Gn 4, 15), Deus quer deixar claro que a ninguém é lícito praticar a vingança e que, aquele que O desobedecer, sofrerá consequências terríveis, advindas do próprio ato. O “sete vezes mais” significa uma consequência ampla, haja vista que o número 7, biblicamente falando, significa plenitude e amplitude. Portanto, não podemos enxergar, na narrativa sobre Caim, um Deus complacente com o assassinato e, sequer, vingativo, mas, algo muito maior e muito mais abrangente: a retirada das mãos e do domínio dos homens da prática da vingança, da qual decorrerão outras tantas consequências, na formação de uma espiral de violência interminável.

A Travessia do Mar Vermelho é mais uma narrativa que, independentemente de ter sido, ou não, real, aponta para o poder absoluto de Deus que é capaz de tudo para defender o justo oprimido e perseguido, diante de algozes que, na hora “H”, serão dizimados, assim como o exército do faraó o foi, pela força invencível das águas. E esta força invencível é Deus, que é soberano e que vale-se da sua potência (leia-se o Magnificat – Lc 2, 51-52) para defender o justo, o perseguido, o explorado e toda uma gama de inocentes sofredores.

Por último, nesta série, a narrativa sobre o servo Jó, homem justo e fiel que, vítima da trama do inimigo, é colocado em condição deplorável, depois de tornar-se um homem rico e bem sucedido, proprietário de terras, de animais, de escravos, de muitos bens, de uma família grande e igualmente bem sucedida e de todo tipo de riqueza e de conforto. Pois bem, para nós é irrelevante saber se Jó é personagem real, ou não, porque a narrativa sobre ele tem por finalidade revelar que o fato de ser fiel, devoto e temente a Deus não deixa ninguém imune às intempéries da vida que, em muitos casos, surgem, sim, como obra do mal, para por à prova a nossa fé e a nossa fidelidade ao Criador que, assim como no caso de Jó, sempre restitui em maior quantidade tudo o que é, injustamente, subtraído de nós. O exemplo de Jó é sempre vivo e pertinente na vida dos homens e das mulheres de todos os tempos.

Obviamente que, neste curto espaço, não pretendemos esgotar todas as possibilidades interpretativas ou exegéticas das narrativas escolhidas como exemplos, mas, apenas, e, tão somente, indicar que, por meio delas, somos encaminhados para situações realmente vividas pelos homens e pelas mulheres de todas as épocas. Assim, conforme já dito, é irrelevante saber se as narrativas bíblicas são reais ou não, o que é extremamente importante e relevante é identificar a direção para onde elas apontam e como, por meio delas, Deus pretende nos instruir para uma caminhada fértil e saudável.

Por fim, e apenas para confirmar o que dizemos, é bom lançar um olhar semelhante para o Novo Testamento e para forma utilizada por Jesus para ensinar o povo do seu tempo: valeu-se de parábolas! Parábolas são, também, narrativas exemplificativas, tiradas da realidade vivida e conhecida dos ouvintes para servirem, didaticamente, como instrumentos de ensino. Veja-se, por exemplo, a parábola do filho pródigo: certamente que a história descrita por Jesus não aconteceu de fato. Mas, trata-se da descrição de uma situação que se passa em um ambiente bastante conhecido do povo: um pai; dois filhos; um mais dedicado do que o outro; um mais ambicioso do que o outro; um mais aventureiro e irresponsável do que o outro; uma herança a ser repartida; um mundo de atrações e de prazeres para quem detém riquezas; as graves consequências sofridas por aquele que gasta tudo o que tem de forma irresponsável e tresloucada; um pai sofrido pela partida do filho; o arrependimento daquele que sofre as consequências dos seus impensados atos; o perdão carinhoso do pai, que recebe o filho de volta, com festa e banquete; e, por último, a crítica do filho justo e fiel que vê o faltoso ser recebido com tamanha comemoração. No mesmo sentido caminham todas as demais parábolas narradas por Jesus: a parábola do semeador; a do bom samaritano; a do joio e do trigo; a do grão de mostarda; a dos servos devedores; a dos operários da vinha; a dos maus vinhateiros. Faça estas leituras com interesse e atenção.

Portanto, o que se pretende com mais este texto sobre temas bíblicos, é deixar claro que a Bíblia não é nenhum bicho-papão e que, ao contrário, deve ser lida com cada vez mais frequência, pois, nela está contida a Sabedoria de Deus que, outra coisa não deseja, senão revelar-nos todos os seus mistérios. Mas, para que isso aconteça, é necessário que sejamos fiéis, devotos, tementes e seguidores dos ensinamentos e dos preceitos divinos, além, é claro, de sermos constantes na oração e na leitura das Sagradas Escrituras. Não basta, portanto, ler de vez em quando, quando algum sofrimento ou angústia batem à porta. É preciso constância e habitualidade.

Não deixe de ler a Bíblia todos os dias da sua vida (estamos no mês dedicado a ela). Lendo muito ou pouco, leia-a com atenção, interesse e constância. Seus olhos, iluminados pelo Espírito de Deus, de forma lenta e progressiva, identificarão os caminhos traçados pelo Criador para uma caminhada próspera, verdadeiramente feliz e condutora para o Reino de Deus, que já está no meio de nós. Faça isso. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.
 

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