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jun 25

AO ORAR, VISITE O TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

EM MEDITAÇÃO - 2

ONDE FICA A MORADA DE DEUS?

*Por Luiz Antonio de Moura –

A pergunta é interessante, quando percebemos que apesar de tudo e de todos, o mundo caminha dentro de uma lógica eminentemente religiosa, na qual judeus, cristãos e muçulmanos professam a fé no Deus único e, neste Deus, procuram justificar suas ações e, não raro, reações.

É bastante comum a exibição de milhares e milhares de fieis destas três grandes religiões monoteístas prestando culto Àquele a quem devotam suas vidas, na esperança da eternidade da alma. E o modo pelo qual os milhões de fieis relacionam-se com o Deus Único, é por meio da oração.

A oração pode ser individual ou coletiva, ritualística ou isenta de qualquer formalidade, sendo que, por intermédio dela, os fieis acreditam comunicar-se com Deus e por Ele serem ouvidos e atendidos em suas mais diversas súplicas. Até aí tudo caminha mais ou menos bem!

Entretanto, parece existirem algumas questões que desafiam o enfrentamento. A primeira delas está relacionada à pessoa e à localização Daquele a quem estamos nos dirigindo. É comum o fiel, em oração, abaixar a cabeça, como se estivesse contemplando o chão, e ali, desfiar inúmeras palavras. Ou, em outra vertente, levantar a cabeça, com os olhos fixos no alto, na direção do infinito, proferindo outras tantas palavras. Tanto na primeira quanto na segunda hipótese, o que pode ser percebido é que o fiel está falando com alguém que ele imagina estar em algum lugar, mas, que ele não consegue identificar muito bem e, por esta razão, abaixa ou levanta a cabeça e, em alguns momentos, fala a esmo.

Este tipo de “oração” é bastante comum. O outro tipo, não menos usual, é o que leva a pessoa a erguer as mãos para o alto e, com os olhos fechados, dirigir palavras a Deus, que ela, orante, imagina estar em lugar acima de si.

Estas constatações não têm por finalidade fazer críticas aos orantes, afinal, orar é sempre saudável. Entretanto, o que se pretende é chamar o orante à razão, para que ele não perca tempo falando com um Deus que não está no chão e, muito menos, no alto, mas, dentro de cada um, inclusive, da pessoa que ora.

Observe-se que Jesus, quando ensinou os discípulos a orarem, valeu-se de uma fórmula bastante simples, dizendo: "Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê (o que se passa) em segredo, te dará a recompensa" (Mt 6, 6). Orar em segredo é voltar-se para dentro de si. Entrar no quarto e fechar a porta equivale a sugerir que o orante adentre ao compartimento mais secreto da sua alma e, ali, em espírito, comunique-se com o Pai que, vendo tudo em segredo, ouve e atende (dará a recompensa) ao clamor do orante.

É sempre útil e oportuno recordar que desde os tempos do Antigo Testamento é Deus quem toma a iniciativa de vir até os homens, e não o contrário. Haja vista o que ocorre, por exemplo, lá, no jardim do Éden, quando Deus procura por Adão, depois do cometimento do pecado, perguntando: “Onde estás?” (Gn 3, 9); depois, procura por Noé, anunciando o dilúvio (Gn 5, 12); Deus vem até Abrão e diz; “Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrar” (Gn 12, 1). Com Moisés, também, não foi diferente: enquanto apascentava as ovelhas do sogro, Moisés observa a sarça ardendo em fogo e, ao se aproximar, ouve a voz do próprio Deus, convocando-o para libertar o povo do jugo do faraó.

Já no Novo Testamento, Jesus vai afirmar que “se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14, 23). Mais adiante, vamos encontrar o Apóstolo Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, advertindo-os acerca da sacralidade do corpo, ao declarar: “Porventura não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertence?” (ICor 6, 19). E, para finalizar, Jesus, na conversa com a samaritana à beira do poço de Jacó, ensina como devem proceder os verdadeiros adoradores de Deus, ao afirmar que: “vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, porque é destes adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram” (Jo 4, 23-24).

Portanto, a morada de Deus é exatamente no interior daquele que o ama e que segue os seus mandamentos, sendo mal direcionadas as orações dirigidas para o alto, no céu, ou para baixo, na terra, quando o próprio Deus, em Espírito e Verdade, habita no íntimo do ser humano. Se alguém está do lado de fora da casa, é preciso sair da casa para conversar com ele. Porém, se está no interior da casa, fechadas as portas e as janelas, a conversa transcorre na mais profunda discrição, longe de olhares e de ouvidos atentos.

Neste aspecto, parece ser a meditação a forma mais completa e perfeita para uma profícua comunicação com Deus, que está no meio de nós; que está dentro de cada um de nós. Não devemos procura-Lo n’outro lugar, porém, devemos reverenciá-Lo na pessoa do outro, no qual Ele habita também. Neste sentido, os indianos e os nepaleses são sábios ao proferirem o cumprimento “Namastê”, significando mais ou menos o seguinte: “o Deus que habita no meu coração, saúda o Deus que habita no seu coração”. Trata-se de posicionamento sábio, pertinente e, embora involuntário, condizente com as Sagradas Escrituras tão estudadas e tão difundidas por judeus e por cristãos.

Nesta etapa da civilização, é preciso que o ser humano se aproxime cada vez mais da divindade, tendo plena consciência da unidade homem-Deus, sem admitir, pregar ou viver em função de uma separação que jamais existiu. O caminho para uma melhor compreensão desta complexidade é o mistério da encarnação de Jesus, mediante a qual o Filho de Deus habita entre nós de forma verdadeiramente humana e verdadeiramente divina. Assim como Ele, nós, também, somos um com todos e com o Todo. Então, no momento da comunicação com Deus, seja de forma individual ou comunitária, devemos fazê-lo olhando para dentro de nós mesmos, para o interior do nosso “eu”, onde é a morada de Deus e o templo do Seu Santo Espírito.

Devemos refletir sobre tudo isto e, de forma progressiva e serena, melhorar a nossa comunicação com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, se é que pretendemos realmente uma vida eterna. Caso contrário, vamos continuar falando com Deus, olhando para a direita enquanto Ele está na esquerda, ou vice-versa, ou seja, falando com alguém sobre quem não sabemos exatamente a localização. Pense sobre isso. Boa sorte, e seja feliz!!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador e um cultor do silêncio.
   

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