Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

«

»

nov 01

A SANTIDADE É SEMPRE POSSÍVEL, E VISÍVEL

SER SANTO

TEOLOGIA, LIBERTAÇÃO E SANTIDADE:  O PILARES DA SANTIFICAÇÃO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Teologia, libertação e santidade é o tripé sobre o qual, invariavelmente, está construída a vida da maioria absoluta dos santos e santas reconhecidos pela Igreja de Roma e, não raro, por grande parte da própria humanidade. A teologia, porque é necessário conhecer profundamente, e isso não significa a conquista de títulos acadêmicos, a relação filial e cultual entre o humano e o divino. É preciso descer às origens da Criação, perceber o trabalho realizado pelo oleiro no contato com a argila, ver o que dali é extraído, com todas as decorrências e consequências, observar, e até mesmo sentir em si, o amor do Criador de todas as coisas, apesar da rebeldia, da ingratidão, da sublevação e da idolatria da criatura para então, e só então, sentir-se parte viva desta relação, atuando como ponto de contato entre ambos – criatura e Criador – facilitando e possibilitando mesmo  o permanente reencontro e a reconciliação capazes de inviabilizar a ruptura indesejada, principalmente, pelo Senhor da vida. Daí a força e o potencial da teologia que, de muitos de nós, exige o esquentamento dos bancos acadêmicos, mas, que, para os santos, flui de maneira quase que natural como, por exemplo, é o caso Teresa de Ávila, proclamada Doutora da Igreja, em 1970 pelo Papa Paulo VI, e de Teresa de Lisieux, proclamada também, Doutora em 1997, pelo Papa João Paulo II. Coincidentemente, ou não, ambos os Papas foram elevados à condição de santos, recentemente, pelo Papa Francisco.

Quanto ao segundo pilar do tripé referido nas primeiras linhas – a libertação – parece ser o mais difícil de ser construído, porque exige mais do que conhecimento e mais do que doutrina: exige compreensão, abertura e renúncia de si mesmo. Aqui está o ponto nodal da santidade. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”, dirá Jesus conforme a narrativa de Mateus (Mt 16,24) para quem, à época escritural do Evangelho, a cruz já revelava de forma clara o caminho da redenção e da santificação.

Renunciar-se a si mesmo não é tarefa fácil. É difícil renunciar aos apegos da vida, às coisas, mesmo as materiais, que compõem o nosso acervo pessoal. Porém, renunciar aos sentimentos, às convicções, à forma de ver, de interpretar e de encarar o mundo, com todos os seus sistemas e suas ideologias, jogando tudo por terra e, com a mente e o coração abertos e totalmente esvaziados, aceitar a loucura da cruz, exatamente da forma radical proposta por Jesus, é desafio que muitos tentaram, e que ainda tentam, mas que poucos – somente os santos – conseguiram, e ainda conseguem.

Esta é a verdadeira libertação. Deixar sair de dentro de si, como a água que escorre do corpo após o banho, toda uma concepção de vida, um ideário e inúmeros caminhos desenhados na composição de projetos bem definidos para, literalmente, esvaziar-se completamente e viver de forma absoluta para Deus e para o outro. E aqui, merece ser aberto um parêntesis: muitos santos e santas viveram de forma absoluta para Deus e para o outro. Mas, há registros daqueles que viveram de forma ainda mais absoluta para o outro, em nome de Deus, como é o caso de Francisco de Assis, de João de Deus e, mais recentemente, de Teresa de Calcutá.

Esvaziar-se por completo, para aceitar ser preenchido por Aquele que é simplesmente Espírito, nada mais. Neste ponto do texto, vem a mente a imagem de Francisco de Assis, absolutamente despido, na praça, diante de todos e da Igreja, representada pelo Bispo. Eis a libertação! Eis a libertação mal compreendida, mal difundida e mal perseguida pelo ser humano dos nossos dias tão tenebrosos. E Jesus virá para acrescentar um pouco mais de sabor a esta libertação: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8,32), pois, o que é a verdade? Onde está a verdade? Ele próprio responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). E Ele, e somente Nele é possível encontrar a verdadeira libertação – “Por isso, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres”, dirá o Evangelista João bem mais tarde, recordando palavras de Jesus (Jo 8,36).

Este entendimento e esta compreensão parece ter tomado conta de forma absoluta da vida dos santos e das santas que, no curso de toda a história do cristianismo, foram reconhecidos e elevados aos altares, por toda a Igreja.

Recentemente, veio a público a tão esperada, e justíssima, canonização de Oscar Romero, cuja vida foi ceifada de forma brutal, sim, mas, que brilha como um facho de luz resplandecente no meio cristão. Dom Oscar Romero que, ao tempo do assassinato (1980), era Arcebispo de San Salvador, durante muito tempo de sua vida acreditou estar enfrentando um movimento incendiário nas hostes da igreja local. Entretanto, convencido pelos fatos, e pelas mortes brutais de sacerdotes e de pessoas simples do povo com quem convivia e com quem mantinha laços fraternos e de profunda amizade – camponeses e trabalhadores braçais – compreendeu que tudo o que se passava no seu entorno político, eclesial e social, desfigurava por completo a justiça querida por Deus para todos os seres humanos. Dom Oscar termina por esvaziar-se completamente, para assumir a condição do oprimido, do explorado, do perseguido e do martirizado para, colocando-se na linha de frente, literalmente abraçado ao Cristo consagrado, levar o tiro que tira-o da vida para colocá-lo na galeria dos que souberam amar Cristo e seus irmãos.

A terceira parte do tripé a que nos referimos desde o início deste texto, é a santidade. Esta, pois, entendida como forma de vida resultante dos dois primeiros pilares, porém, não menos difícil de ser alcançada, haja vista ser cavada dia-após-dia na vida daquele agricultor de almas que sofre todo tipo de incompreensão, de ingratidão, de inveja e até mesmo de perseguição e de morte, mas, que, com olhar fixo no horizonte, enxerga o gólgota e contempla a figura Daquele que padeceu por primeiro todas as adversidades. É a vitória Dele, a certeza da coroação celestial, sem, sequer, almejar a coroação terrena após a morte, que faz dos santos e das santas pessoas tão especiais e tão difícil de serem imitadas.

Há quem, no meio cristão, apresente severas críticas à santidade reconhecida àqueles e àquelas que, sobre o tripé da teologia, da libertação e da santidade, foram reconhecidos e elevados à condição de santos e de santas, para serem reverenciados e imitados no seu viver e no seu proceder. No entanto, tais críticas provêm, justamente, daqueles e daquelas que, olhando para si e para o seu entorno, são incapazes de enxergar e de reconhecer os santos e as santas que caminham ao seu lado. Não têm culpa por pensarem da forma como pensam, afinal, são carentes de uma maior revelação por parte do Espírito. Por estes irmãos e irmãs, certamente, nossos queridos santos e santas rogam ao Cristo Jesus por toda a eternidade.

O fato a ser destacado é este: viver neste mundo de hoje, como o foi no de ontem e, certamente, como o será no de amanhã, não é tarefa fácil para os servos e as servas de Deus. Sempre haverá a necessidade de lançar um olhar para a teologia, com toda a sua profundidade e em toda a sua essência, para a libertação do espírito, de modo a alcançar o completo esvaziamento de si mesmo, e para a santidade na práxis do dia-a-dia e em todos os dias da existência. Diante da dificuldade para chegarmos a tal ponto, não podemos deixar de reverenciar a memória daqueles e daquelas que, ainda em vida, alcançaram tamanha vitória, e, deles e delas, devemos procurar ser imitadores porque, também eles e elas foram imitadores do Cristo Jesus.

No dia dedicado a todos os santos, é nosso dever recordar de todos e de cada um deles, de acordo com nossa capacidade de memória, procurando conhecer-lhes um pouco da vida, valorizando tudo o que fizeram e buscando imitá-los na medida do que nos for permitido por Deus. Nossa devoção, portanto, deve ser dirigida a todos os santos e santas, em reverência a tudo o que representaram neste mundo e em reconhecimento pelo status que galgaram na história do cristianismo. Leia, reflita e procure conhecer um pouco mais sobre a vida dos santos que lhe vierem à memória neste dia. Certamente, sua vida terá objetivos muito mais diretos, definidos e santos, sem se esquecer de que, ao lado de cada um de nós, e em todas as partes, santos e santas, conhecidos nossos, continuam caminhando e praticando as boas obras, com mentes e corações totalmente voltados para o Senhor. São irmãos e irmãs que vivem em profunda santidade, também. É preciso identificá-los, reconhecê-los e imitá-los, para podermos cumprir o desejo de Jesus: “Sede perfeitos pois, como também vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5,48). Seja feliz, e boa sorte!

_____________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Apoio: