Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por mês: outubro 2015

out 31

É NO SILÊNCIO, QUE DEUS SE FAZ OUVIR

O SILÊNCIO DE DEUS

O INCOMPREENSÍVEL SILÊNCIO DE DEUS

*Por Luiz Antonio de Moura

                        Os pensamentos e o modo de agir de Deus são profundos mistérios para nós. Por mais que acreditemos possuir conhecimentos acerca do divino, mais distantes estamos da realidade que envolve o transcendental. Um dos maiores e mais significativos mistérios de Deus é, sem sombra de dúvidas, o silêncio. Após muitas horas de orações e de contemplações, é natural que pensemos em ficar recolhidos em silêncio, aguardando a manifestação divina. Entretanto, não raro, somos surpreendidos com o mais absoluto silêncio, quando somos levados a uma série de dúvidas em nosso íntimo. Nossas orações foram ouvidas? Nosso palavreado e nosso despojamento diante do Altíssimo foram recebidos? Num primeiro momento, parece que ambas as respostas são negativas.

                        Ou os nossos movimentos labiais, sentimentais e espirituais não foram recebidos ou, o que é pior, simplesmente foram rejeitados por Deus, que não quer falar conosco naquele momento. Nesta hora, segundo Inácio Larrañaga, “Começam a surgir vozes, não se sabe de onde, se inconsciente, se do subsolo, ou se de parte alguma, e perguntam: “Onde está o seu Deus?” (Sl 41)”[1].

                        Quantas são as oportunidades que se apresentam em nossas vidas, nas quais podemos ver um pai de família, com filhos menores, sendo brutalmente assassinado? Ou uma mãe, ainda jovem, morrer em decorrência de um câncer agressivo? E, diante de tais situações, pensamos conosco: como Deus pode permitir tais coisas?

                         Diante de situação tenebrosa, o então Papa Bento XVI, visitando campos de concentração na Áustria, onde milhares de homens, mulheres e crianças foram covardemente executados, afirmou: “seria o caso de perguntarmo-nos: onde estava Deus?”

                        O mesmo Inácio Larrañaga afirma que “São João da Cruz expressa admiravelmente o silêncio de Deus com versos imortais:

Onde te escondeste,

Amado, que me deixaste gemendo?

Fugiste como o cervo,

Deixando-me ferido;

Saí clamando atrás de ti,

E tinhas ido”[2]

                         Nossa vida e nossa experiência com Deus é sempre um êxodo, sempre um “sair clamando atrás de ti”, porque Dele recebemos tudo e Nele está escondida a nossa vida. Por mais que Ele se mantenha em silêncio e por mais que demore a se revelar a nós, estamos sempre determinados a bater à porta para que, depois de muita insistência (Lc 11, 8) consigamos ser atendidos. É pretensão humana achar que este ou aquele modo de vida, que esta ou aquela forma de despojamento, de oração ou de contemplação, possa servir de atalho para chegar mais próximo de Deus conseguindo, em última instância, ouvir Sua voz e Dele receber missões, como ocorreu com diversos santos.

                        Na verdade, nossa forma de vida, consagrada, dedicada e totalmente despojada, só pode servir como penitência pelas nossas inúmeras transgressões. Porque, Deus se manifesta a quem Ele quer, e quando Ele quer. E aí, independe da pessoa ou do modo de vida que leva. É pretensão humana, criar guetos espirituais privilegiados, acreditando que Deus, ali, há de se manter em constante relação. Daí, as profundas decepções e até mesmo abandonos da fé, porque passam muitos seres humanos durante suas caminhadas.

                        Santa Gema Galgani, virgem, pura, humilde e merecedora de receber em seu corpo todos os estigmas da paixão de Jesus Cristo, longe de sentir-se uma privilegiada devota e amada por Deus, colocava-se de joelhos, e pedia ao diretor espiritual que também o fizesse, suplicando a Jesus o perdão por seus “terríveis pecados”.

                        É preciso entender que todos, de forma absolutamente idêntica, somos iguais perante Deus, e que Ele, na plenitude da palavra, não faz qualquer acepção de pessoas, nem para o bem, nem para o mal. Não devemos, portanto, acreditar que, por causa das nossas opções e formas de vida, das nossas longas orações e contemplações, seremos mais agraciados por Deus, do que outros, que oferecem muito menos. Tanto uns, quanto os outros, somos vistos e ouvidos por Deus que, no momento oportuno, manifesta-se àquele que Ele julga ser merecedor.

                        Muitos anos se passaram, desde que Deus mandou Abraão contar as estrelas do céu, para compará-las em número com a descendência que sairia do patriarca. Sem ver nada de novo acontecer no seio de sua família, formada por ele e Sara, Abraão ouve Deus novamente prometer-lhe uma recompensa muito grande (Gn 15,1) e, já quase sem esperanças, diz: “Vós não me destes posteridade, e é um escravo nascido em minha casa que será o meu herdeiro” (Gn 15, 3). Deus, porém, afirmou que não seria assim, como Abraão estava pensando, e confirmou: “Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que vai nascer de tuas entranhas” (Gn 15,4), e novamente faz Abraão olhar para o céu e o desafia a contar o número das estrelas, se fosse capaz. Por fim, o Senhor reafirma: “Pois bem, assim será a tua descendência” (Gn 15,5). E a história do patriarca se desenrola tal como conhecemos da narrativa bíblica.

                        Também, nos momentos finais do Calvário, Jesus, ainda na condição humana, experimenta o mais profundo e absoluto silêncio de Deus, e, com tal angústia, chega a questionar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15, 34). E, naquele momento derradeiro, Jesus se lança nos braços do Pai com tal despojamento e entrega, que compreende, melhor do que ninguém até então, e até depois Dele, o significado do silêncio de Deus em toda a sua plenitude.

                        Portanto, é necessário estar e caminhar sempre com Deus, e cada vez mais, assim como colocar-se em oração, contemplação e em total e abnegada entrega nos braços do Pai. Porém, é fundamental buscar compreender e, acima de tudo, respeitar, o silêncio de Deus, sem perder a fé, a esperança e a coragem para continuar a caminhada até o último de todos os instantes, por mais dura e difícil que seja.

                    Saímos de um ponto e para este ponto retornaremos e, creiamos, do início ao fim, Deus está no comando porque, tudo vem Dele e para Ele tudo há de retornar.

________________________________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook. 
 ________________________________________________________________ [1] LARRAÑAGA, Inácio. Mostra-me O TEU ROSTO. São Paulo. Paulinas: 2013. 480 págs. [2] Idem, pág. 67.

out 31

REFLETINDO SOBRE MARIA

O SIM DE MARIA

MARIA: A SERVA DO SENHOR –

 

                         Estamos prosseguindo com a narrativa de Keith Fournier, um americano que, além de advogado na área dos direitos humanos é, também, teólogo e filósofo, graduado pela Universidade Franciscana de Steunbenville, de Ohio, e que publicou em 2007, pela Thomas Nelson Brasil, o livro intitulado “A Oração de Maria”, por meio do qual ele explora os caminhos percorridos por Maria desde o Fiat até o Pentecostes, trazendo para nós uma visão apaixonante de Maria. Uma visão que certamente vai ampliar nossa devoção ou, em última análise, fará de nós verdadeiros devotos.

                        Não temos por objetivo transcrever todo o conteúdo do Livro de Keith Fournier, aqui, neste simples espaço de publicações quinzenais, mas, apenas o suficiente para divulgar o que a intelectualidade estrangeira pensa e escreve sobre a Mãe de Deus. Por esta razão, hoje, estamos publicando o Capítulo VI, último da Primeira Parte do livro.

CAPÍTULO IX[1]

VIVENCIANDO A ALEGRIA DO SENHOR 

Buscar a felicidade ou a bem-aventurança por si só é inverter as prioridades. A felicidade não é um alvo a ser alcançado, mas, antes, um fruto produzido dentro de nós pela participação na vida da graça” 

                        “Maria era a mulher mais humilde, e ainda assim cantou que todas as gerações a chamariam bem-aventurada. Na verdade, suas palavras eram mais do que belas ou inspiradas: elas eram proféticas. Através dos séculos, suas palavras provaram ser ver­dadeiras. Em algumas tradições cristãs, Maria é conhecida por “Virgem Abençoada”; em outras, por “nossa Mãe Abençoada”. Os cristãos sabem que Maria foi escolhida por Deus para ser a primeira habitação terrena daquele que veio para redimir o mundo. De fato, ela foi “bem-aventurada entre as mulheres”.

                       A palavra grega no texto bíblico traduzida por “bem- aventurada” é makarios. A palavra está mais para verbo do que para adjetivo; na voz ativa, se refere a um relacionamento. Aqueles que percebem a completa maravilha do encontro de Maria com o Senhor não podem deixar de perceber a mag­nanimidade do que Deus realizou, para ela e para o mundo, por meio da Encarnação. Em seu significado mais profundo, a bem-aventurança de Maria se refere a seu relacionamento com o Senhor, que é a fonte de toda sua alegria. O próprio Senhor a chama de “bem-aventurada” ao vir habitar em seu interior e a partir disso convidá-la a um relacionamento com ele.

                        A alegria e a felicidade autênticas fluem de um relacio­namento íntimo com Deus, um relacionamento que é sempre ele quem inicia e para o qual somos sempre convidados. Ma­ria compreendeu esse convite e respondeu espontaneamente, tendo se rendido em amor abnegado; e agora nos mostra o caminho da felicidade. A sua felicidade é verdadeiramente um assunto do coração.

                        Na escolha que fez durante a anunciação do anjo quanto aos planos de Deus, Maria iluminou o caminho para a verda­deira alegria interior. Maria exibiu para todos o que o apósto­lo Paulo chamaria em sua primeira carta aos coríntios de “um caminho ainda mais excelente” (1 Coríntios 12:31). O amor é o caminho para a alegria interior autêntica. Temos a mesma capacidade de Maria de escolher um relacionamento profundo, duradouro e transformador com Cristo, que é o amor em pessoa. Quando dizemos sim à oferta de Deus, de uma forma muito real Jesus é concebido em nosso coração, e nós então somos aben­çoados, felizes e repletos de alegria. O tipo de felicidade e de bem-aventurança que Deus nos concede não depende de circuns­tâncias. Num mundo perturbado e doente por causa do pecado, é inevitável que encontremos o sofrimento. Maria com certeza encontrou. Foi-lhe dito que seria trespassada por uma espada (Lucas 2:35), e no fim das contas ela passou por um sofrimento praticamente inimaginável. Mesmo assim, sua vida, suas perdas e as provações que suportou — vendo seu Filho sendo levado à cruz — jamais ofuscaram as bem-aventuranças que provou. Essas mesmas bem-aventuranças estão disponíveis a nós.

0 tipo de felicidade e de bem-aventurança que Deus nos concede não depende de circunstâncias.

                        Na tradição da Igreja Oriental (ortodoxa e católica), um dos ícones mais populares de Maria é chamado de a Platytera, que significa: “Ela que é mais espaçosa do que os céus.” Esse ícone retrata Maria com Jesus em seu útero, estando os braços dele abertos para o mundo, ou, em algumas versões, sua mão direita estendida para abençoar. Na maior parte da iconografia oriental, Maria não aparece sem Jesus. Isso é para que sejam enfatizados a verdadeira fonte da alegria, o conteúdo da missão e o significado da vida de Maria. Deus encarnado veio habitar nela por amor ao mundo.

                        Buscar a felicidade ou a bem-aventurança por si só é inverter as prioridades. A felicidade não é um alvo a ser alcançado, mas, antes, um fruto produzido dentro de nós pela participação na vida da graça. Um dos homens mais felizes que conheci foi um sacerdote chamado Philip Bebie, meu confessor e conselheiro, no que era então chamada de Faculdade de Steubenville (hoje a Universidade Franciscana de Steubenville), em Ohio, Estados Unidos. Meu primeiro encontro com o padre Philip foi depois de ele ter aceitado o convite para formar uma pequena comunidade de sacerdotes no campus. Eu, por outro lado, aceitei formar uma pequena comunidade de estudantes, uma “família da fé”, que ajudaria a fomentar a renovação espiri­tual pela oração, pelo testemunho e pela vida em comum. De­pois de trabalharmos juntos no ministério do campus, o padre Philip e eu ficamos amigos para sempre. 

Buscar a felicidade ou a bem-aventurança por si só é inverter as prioridades. A felicidade não é um alvo a ser alcançado, mas, antes, um fruto produzido dentro de nós pela participação na vida da graça.

                         Depois da faculdade, do meu casamento e do nasci­mento de meus filhos, o padre Phil me motivou como marido e pai em minha “vocação”, como acertadamente ele chamava o casamento e a família cristã.

                        Periodicamente, ele me enviava pequenos lembretes sobre o amor de Deus e de retratos de “sua Senhora”, Maria, a mãe do Senhor. Ele nutria um amor profundo por Jesus, e, portanto, também honrava a mãe de Jesus. Ele também cos­tumava me lembrar do papel que o sofrimento, corretamente entendido, tinha no chamado à santidade.

                        Antes de falecer, o padre Philip compartilhou dos sofri­mentos de Cristo pessoalmente. Quando me comunicaram que ele se aproximava da morte, sabia que precisava vê-lo. Não poderia deixá-lo partir sem compartilhar de mais uma conversa, mais uma risada, mais uma oração e mais um abraço. Rapida­mente comprei uma passagem de avião. Quando cheguei, dirigi o carro alugado durante um dia triste e frio, procurando conter o pesar e o receio que se reviravam dentro de mim. Cheguei ao enorme monastério passionista onde o padre Philip se encon­trava, sozinho, na enfermaria. A imensa construção — que na década de 1950 fora o lar de mais de cinquenta homens e de um número maior ainda de seminaristas — agora hospedava sete velhos sacerdotes, incluindo Philip.

                        Estacionei o carro e me dirigi para perto da grande entra­da de vidro. Antes que pudesse alcançar a campainha, encontrei um recado preso à porta. Nele estava escrito: “Keith, estou espe­rando por você lá dentro. Padre Philip.” Um homem idoso aguar­dava com muita ansiedade a minha chegada, com a pele enrugada e um abdome inchado. No entanto, o sorriso de intensa alegria do padre Philip iluminou seu olhar penetrante, e uma fisionomia de paz e de alegria deram um novo ânimo ao já debilitado corpo. Ele era genuinamente feliz. Ele era “bem-aventurado”.

                        Na parede, havia um quadro de Jesus e próximo estava um quadro de sua mãe, Maria, a mãe do Senhor, a mulher por quem padre Philip nutria imensa afeição. Ele falou dos dois mui­tas vezes durante as horas restantes e me encorajou a descobrir o mistério e o significado contido no Magnificat de Maria. Ali estava um homem cujos dias e noites não mais se separavam, devido às dores intensas. Encontrava-se completamente só naquela enfer­maria, à beira da morte, professando, porém, com uma admi­rável certeza, que Jesus fora bom para com ele. O padre Philip gozava de uma alegria plena que eu jamais experimentara.

                        Ele orou diversas vezes comigo durante minha visita. Falou a verdade e me fez lembrar das promessas de Jesus. Mais cedo do que eu esperava, já chegava a hora de partir. Ele ou­viu minha confissão e pronunciou a absolvição, colocando suas grandes mãos em minha cabeça e orando para que o amor cheio de ternura e paternal de Deus continuasse a me guiar. Sete dias depois, Philip voltou para casa, junto ao Senhor.

                        Cerca de um ano após essa visita, eu estava em casa num sábado frio de outono. A folhagem colorida das árvores me atraía para fora e decidi então dar uma caminhada, naquela tar­de refrescante de Steubenville. Como estava ficando mais frio, fui até o sótão para desencavar o sobretudo de lã azul. Andei pelo bosque, aparentemente sozinho. De repente, fui tomado por uma sensação da presença da paz de Deus. Pensei em Phi­lip e no quanto sentia sua falta. Enquanto pensava sobre minha vida e as responsabilidades, percebi o quanto ainda necessitava dos conselhos dele. Comprimi as mãos dentro dos bolsos, a fim de aquecê-las, e descobri um furo numa das costuras. Aquilo não me surpreendeu, porque, afinal de contas, era um casaco velho, mas o meu preferido. Entretanto, meus dedos ultrapas­saram o furo alcançando a costura interna e lá descobri um pedaço de papel dobrado. Peguei-o e o abri. Em seguida, li o que estava escrito: “Keith, estou esperando por você lá dentro. Padre Philip”.

                        Ele ainda estava comigo.

                        Padre Philip respondeu ao Deus que é o amor crucifi­cado. Nas palavras de seu Senhor: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de força se apoderam dele” (Mateus 11:12). O padre Philip se apoderou dele à força. Ele se derramou em resposta àquele que derramara o sagrado sangue em favor de toda a humanidade. O padre Philip, assim como Maria, foi verdadeiramente bem- aventurado. Ele entoou o cântico de Maria. Ele perseguiu a mesma santidade de vida que marcou a vida dela e, tal como ela, abraçou a eternidade estando apaixonado. Ele disse sim a Deus. Ele concebeu Cristo em seu coração, e assumiu como sendo o trabalho de sua vida apresentá-lo aos outros.

                        Eu fui um dos muitos cuja vida foi transformada para sempre, por causa de encontros com o padre Philip Bebie. A sua vida transparecia um amor redentor e sacrificial. Nele, eu pude testemunhar a verdadeira bem-aventurança de que Maria cantou, a felicidade de que a Bíblia fala, o gozo inexplicável de que os cristãos têm experimentado por séculos, na medida em que trilham o caminho da cruz.”

* * *

         CONTINUA EM BREVE

____________________________________

[1] Fournier, Keith e GILBERT, Lela. A ORAÇÃO DE MARIA – Aprenda a orar com a mãe de Jesus e descubra a melhor forma de falar com Deus. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil: 2007. 216 páginas.

out 31

IDENTIDADE FRANCISCANA E NÓS

FRANCISCO DE ASSIS - O POBRE

IDENTIDADE FRANCISCANA: A HERANÇA DE ASSIS

   “Pode, porventura, vir coisa boa de Nazaré?”, a pergunta foi formulada por Natanael a Filipe, quando este fala sobre Jesus de Nazaré, filho de José, anunciado por Moisés e por tantos outros profetas. Nazaré, um pequeno e insignificante vilarejo situado ao sul da Galileia, tornar-se-ia famosa para sempre por ter abrigado entre seus habitantes Jesus, filho de Maria e de José e, Filho de Deus.

  Mil e duzentos anos depois, Assis, uma outra cidadezinha situada no coração da Itália, revelaria para o mundo um certo Francisco, filho de Pietro Di Bernadone, um rico comerciante, e de Joana Bourlemont, também conhecida pelo nome de Pica, por ter nascido numa região denominada Picardia, na França, e uma moça da nobreza, chamada Clara, filha de Bernardino e de Hortolana.

  Apesar da distância milenar que os separava do pobre de Nazaré, o amor aos pobres, o respeito a todas as criaturas, a obediência incondicional a Deus e a vida segundo o Evangelho vivido e ensinado por Jesus Cristo, foi o elo que os uniu para sempre, fazendo com que ambos chegassem unidos aos nossos dias arrebanhando discípulos e seguidores em todas as partes do mundo, tal qual o nazareno.

  Nesta página especial, reservada ao franciscanismo, pretendemos apresentar para o público em geral o conjunto de tudo o que foi, e tem sido, realizado sob o carisma franciscano, aí incluídas, sem dúvida, a vida e a obra de Francisco e de Clara de Assis, que outra coisa não pretenderam senão, uma vida radicalmente moldada ao Evangelho vivido e ensinado por Jesus de Nazaré.

  Nosso intento não é seguir uma ordem cronológica, de modo a parecer um compêndio histórico mas, principalmente, revelar textos e contextos por meio dos quais possa-se fazer chegar até as pessoas interessadas, fragmentos históricos que, no conjunto, e objetivamente organizados, revelem toda a trajetória do franciscanismo, desde a fundação da Ordem dos frades menores, por Francisco de Assis, até os dias atuais.

 Para inaugurar nossa página, estamos apresentando de forma mais que oportuna, a contribuição do professor e doutor em História da Igreja, Sandro Roberto da Costa que, não por coincidência, é frade franciscano da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em Petrópolis.

 Frei Sandro, como é carinhosamente conhecido entre nós, apresenta-nos um denso trabalho, por meio do qual destaca a presença franciscana no Brasil, entre os séculos XVIII e XIX, enfocando a interação social, política e religiosa. 

 Por se tratar de trabalho extenso, e objetivando facilitar a leitura dos nossos leitores e seguidores, vamos apresenta-lo de forma fracionada, ou seja, dividida em partes, que serão publicadas quinzenalmente, sempre aos sábados, a começar por este último sábado do mês de outubro de 2015. Ei-lo:

"A Presença franciscana no Brasil nos séculos XVIII e XIX:

interação social, política e religiosa[1] 

PARTE I

*Por Sandro Roberto da Costa[2]

 Poucos monumentos se destacam de modo tão eloquente no cenário urbano carioca como o convento Santo Antônio do Rio de Janeiro. Construído no alto do morro do qual herdou o nome, qual farol a indicar diuturnamente o rumo a incautos navegantes, a histórica construção é símbolo expressivo de uma presença multissecular. Encravado num dos pontos mais tradicionais da cidade, no burburinho do vai-e-vem da metrópole que não para, a alva construção parece passar despercebida por muitos, não fosse o seu silêncio entrecortado por badaladas ritmadas, quase a recordar aos transeuntes a sua centenária existência.

 O funcionamento de uma instituição religiosa deve ser entendido a partir de sua profunda imersão no contexto e na vida da sociedade onde se encontra inserida. Na interação cultural, na troca de saberes, nas relações humanas, de poder e de serviço, entre esta instituição e a sociedade à qual pertence, revelam-se as nuances, as riquezas e fragilidades dos indivíduos e organismos que fazem parte deste intricado mosaico. Nosso objetivo é apresentar alguns momentos e personagens marcantes que nos permitem entrever um pouco desta inter-relação, através da presença e atuação dos franciscanos na cidade do Rio de Janeiro, principalmente na passagem do século XVIII para o XIX.

 Os frades menores de São Francisco de Assis estão presentes em terras brasileiras desde a chegada dos portugueses, na pessoa de frei Henrique de Coimbra, que aqui celebrou a primeira missa. Após essa furtiva passagem, alguns frades anônimos vão continuar aparecendo esporadicamente nas terras recém descobertas. O ano de 1584 marca o início do estabelecimento definitivo dos franciscanos. Sob a dependência da Província[3] portuguesa de Santo Antônio dos Currais, no dia 12 de abril de 1585 chegam os primeiros oito religiosos e fundam a Custódia de Santo Antônio. As quatro primeiras fundações nos quatro primeiros anos se localizaram na região nordeste, mas, já em 1591 era fundado o convento de Vitória, e em 1608, o convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, sinal de um rápido e progressivo deslocamento em direção ao sul do país. Tal deslocamento vai se consolidar nos próximos 50 anos, quando, ao lado de 7 novas edificações, no nordeste, serão erigidos mais 7 conventos na região sudeste, mais propriamente nas regiões compreendidas entre São Paulo e Rio de Janeiro. Tais fundações andavam pari passu com o desenvolvimento político e populacional do país, que aos poucos se deslocava do nordeste para o sudeste-sul da colônia. Em 1675 era criada a Província de Nossa Senhora da Conceição, (mais conhecida como Província da Imaculada) com sede no convento Santo Antônio, no Rio de Janeiro. Sua área de atuação ia desde o Espírito Santo até Montevidéu.

1. Presença e atuação dos franciscanos na cidade do Rio de Janeiro

 No momento de sua separação da Província de Santo Antônio, a Província da Imaculada contava com 10 conventos. Destes, 5 localizavam-se no atual Estado do Rio de Janeiro: convento Santo Antônio (sede da Província), no Rio de Janeiro, Casserebu (Conceição de Macacu – São Boaventura), São Bernardino da Ilha Grande, Cabo Frio, Ilha do Bom Jesus (atual Ilha do Fundão), além dos “hospícios” de Araruama e Campos.[4] Os religiosos trabalhavam no atendimento religioso aos colonos, através da pregação em suas igrejas e santuários anexos aos conventos, na catequese, na assistência às irmandades e Ordens Terceiras, na confissão e culto divino. A preocupação com a solenidade no culto era uma das marcas registradas dos franciscanos, que atraíam os fiéis, principalmente nos dias de solenidade de Nossa Senhora, ou de santos franciscanos. Os franciscanos sempre tiveram na pregação e no testemunho de vida as principais formas de evangelização. Neste sentido, a cidade do Rio de Janeiro teve a graça de poder ouvir grandes mestres franciscanos da oratória, principalmente nos inícios do século XIX. Quanto ao testemunho de vida, vários frades se destacaram de tal modo que sua memória permanece viva ainda hoje na história da cidade e de seus habitantes. Um dos casos mais significativos é o de frei Fabiano de Cristo, irmão leigo, que, trabalhando por 38 anos na enfermaria, cativou a todos com sua bondade, caridade e simpatia. Até hoje é venerado como santo pela população[5]. Outro nome que se destaca é o de frei Antônio de Sant’Anna Galvão, o primeiro santo brasileiro, que também teve sua formação no convento do Rio de Janeiro, e ali foi ordenado, no dia 11 de julho de 1762.[6]

 Mereceria um capítulo à parte no nosso breve estudo o papel dos frades franciscanos na propagação da devoção a Santo Antônio na cidade. Santo português, nascido em Lisboa, tendo-se feito franciscano, ficou famoso como pregador e taumaturgo. Sua devoção, que em Portugal já era muito forte, no Brasil consolidou-se com a chegada dos franciscanos: nos primeiros 65 anos de presença franciscana, dos 17 conventos fundados, 9 tinham o santo lisboeta como orago principal. Não é à toa que os frades eram conhecidos também como “frades de Santo Antônio”. No Rio de Janeiro, a forte devoção ao santo pode ser ilustrada por um fato que demonstra a profunda interação entre o religioso e o social nos primórdios do desenvolvimento da cidade. Por ocasião da invasão do Rio de Janeiro pelas tropas francesas de Jean Duclerc, em setembro de 1710, boa parte da população buscou refúgio no convento dos franciscanos, uma verdadeira fortaleza no alto do morro. As autoridades por sua vez pediram aos frades que rezassem todas as missas do dia na intenção do sucesso da batalha que estava para iniciar, e que colocassem a imagem do santo na muralha do convento, para presidir a batalha na qualidade de general.[7] Os franceses foram derrotados e os oficiais foram encarcerados na prisão do convento e no colégio dos jesuítas. Numa segunda invasão, em 1711, os cariocas foram pegos de surpresa. Desta feita, nem o convento foi poupado pelas tropas de Duguay-Trouin. Ameaçados de morte, os frades foram obrigados a entregar aos invasores os bens que lhes haviam sido confiados pelos habitantes da cidade.

 O serviço religioso prestado pelos frades à população era um dos principais meios de interação entre franciscanos e a sociedade fluminense. Além do serviço nos conventos, os frades eram capelães da misericórdia, atendiam aos conventos de religiosas que aos poucos se instalavam na cidade, e eram chamados a prestar auxílio aos párocos. No “recôncavo” do município do Rio de Janeiro, na atual baixada fluminense, os franciscanos também deixaram suas marcas: Raiz da Serra, Pilar, Inhomirim, Suruí, Magé, Nova Iguaçu, Guapimirim, zonas distantes e de difícil acesso, com suas fazendas e engenhos, nos contrafortes da Serra dos Órgãos eram áreas de atuação do frades, principalmente nas desobrigas pascais (confissões e missas no período da Páscoa). Depois que a cidade se tornou capital da colônia, em 1763, abriu-se aos franciscanos uma nova frente de trabalho: prestavam assistência religiosa aos soldados das várias fortalezas da baía da Guanabara, ou nos navios de guerra portugueses. Também atendiam aos presos nas cadeias militares instaladas na cidade, muito próximas ao convento Santo Antônio. Ali atendiam os condenados à morte nos últimos sacramentos. O mais famoso condenado atendido pelos franciscanos foi Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes."

CONTINUA EM 14/11/2015

________________________________________

Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.

 _______________________________________________

[1]  Palestra proferida na sede do IPHAN, no dia 22 de setembro de 2004. Esta palestra é parte das pesquisas para a obtenção do título de doutor em História da Igreja, na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma. 

[2] O autor é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Formou-se no ano 2000, com a tese “Processo de decadência e tentativas de reforma da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil: 1810-1855”. Trabalha atualmente na Faculdade de Teologia do Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis.

[3] Província: certo número de conventos que, preenchendo determinados requisitos, são reunidos sob um governo comum. Custódia: certo número de conventos que ainda não formam uma Província.

[4] Hospícios eram casas de hospedagem para os religiosos, quando de viagem entre um convento e outro.

[5] Irmão leigo é o religioso que não recebe a ordenação sacerdotal. Frei Fabiano de Cristo faleceu no convento Santo Antônio do Rio de Janeiro, aos 17 de outubro de 1747. Em 1748, o Visitador, em vista dos milagres que se lhe atribuíam, pediu para que se tirasse informações “jurídicas e autênticas” a respeito “das maravilhas e favores que Deus, com largueza, está fazendo por intercessão de seu servo fr. Fabiano de Cristo”. Cfr. Elenco, n. 398, p. 69.

[6] Frei Antônio de Sant’Anna Galvão foi beatificado pelo papa João Paulo II em Roma, no dia 26 de outubro de 1998, e canonizado pelo papa Bento XVI em São Paulo, no dia 11 de maio de 2007. Processo de Canonização: CONGREGATIO DE CAUSIS SANCTORUM, Prot. Nº 1765, Sancti Pauli in Brasilia canonizationis servi dei Fr. Antonii a Sancta Anna Galvão (Antônio Galvão de França) O. F. M. Disc. Fundatoris Monasterii Sororum Conceptionistarum (Recolhimento da Luz) (1739-1822), 2 vols., Roma 1993.

[7] Santo Antônio, que já havia recebido a patente de Capitão de Infantaria, iria chegar, com o tempo, à patente de Tenente Coronel, com direito ao soldo, pago aos frades. MACEDO SOARES, J. C., Santo Antonio de Lisboa Militar no Brasil, Rio de Janeiro 1942.

out 31

EVANGELHO: O PÃO NOSSO DE CADA DIA

BÍBLIA NOVÍSSIMA

SÁBADO, 31 DE OUTUBRO DE 2015 –

30ª Semana Tempo Comum –

Evangelho - Lc 14,1.7-11 –

Quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado –

† Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas 14,1.7-11 –

Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: 8' Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: 'Dá o lugar a ele'. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. 10 Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: 'Amigo, vem mais para cima'. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. 11 Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado.' 

Palavra da Salvação!

out 31

A VIDA DA PALAVRA, POR MEIO DA LITURGIA!

CÁLICE

LEITURAS SUGERIDAS PARA HOJE – SÁBADO – 31/OUT/2015 –

1ª Leitura - Rm 11,1-2a.11-12.25-29 Salmo - Sl 93 (94),12-13a. 14-15. 17-18 (R. 14a) Evangelho - Lc 14,1.7-11 Reflexão - Lc 14, 1.7-11

out 30

A LONGA, DIFÍCIL E ILUMINADA ESTRADA DA VIDA

CAMINHANTE

SOU CAMINHANTE

*Por Luiz Antonio de Moura

                      Sou caminhante! Pelas estradas da vida tenho caminhado corajosamente. Não, sem medos! Não, sem tropeços! Não, sem contratempos, ou sem antipatias, amizades ou inimizades! Porém, caminhar é preciso. Em diversas oportunidades, fui socorrido por irmãos e por irmãs que cuidaram das minhas feridas, saciaram minha fome e minha sede e vigiaram pelo meu descanso.

                        Em outras tantas oportunidades, sarei as feridas e minorei as dores de irmãos e de irmãs que encontrei caídos ao longo da estrada. Saciei-lhes a fome e a sede e montei guarda enquanto descansavam. A estrada é sempre longa, e nunca sabemos ao certo até onde teremos de seguir porque, na próxima esquina tudo pode acabar. Porém, caminhar é ser fiel.

                        Em cada trecho da estrada encontrei bons amigos. Amigos, que souberam, e ainda sabem, compartilhar o pão da dor, o pão da alegria e o pão do amor. Amigos, prontos para o tudo e para o nada. Mas, sempre fieis, porque veem de lugar santo e com missão específica. Encontrei, também, alguns inimigos vorazes, filhos da inveja e do orgulho; irmãos da prepotência e da ambição. Íntimos da incompetência e da má-vontade que, saídos de abismos tenebrosos, também têm missão específica a cumprir. Porém, caminhar é divino.

                        Mas, ao longo de toda a estrada sempre me senti acompanhado. Sempre tive com quem conversar e de quem ouvir ensinamentos imprescindíveis para o sucesso da marcha. Nunca estive só. Pelo contrário, luzes e vozes, passos e abraços fizeram-se sempre presentes, concedendo-me forças, coragem e determinação para não recuar, não parar, não desistir e, se em algum momento mais difícil caí sob o peso do fardo, tive restituídas as energias necessárias para continuar, ou até mesmo para recomeçar, porque, caminhar é vital.

                        Sou caminhante! Sigo na direção do eterno, Daquele que sempre me ouve e me vê; Daquele que sempre indica novas direções e novos rumos para a minha longa caminhada, livrando-me das armadilhas e dos tropeços e enviando-me o socorro necessário nas horas mais tenebrosas. Sou caminhante armado e preparado para a guerra dos empecilhos e dos obstáculos, naturais ou maliciosamente preparados. Que armas possuo? A fé e a Palavra. O calor, o amor, a luz e a inspiração do Espirito que, como brisa suave, expele o seu sopro por onde quer que eu passe. Caminhar é viver.

                        A estrada que percorro é bastante larga e comporta muitas outras pessoas. Eu as convido, mostrando-as o que me é permitido mostrar, falando o que me é possível falar, dividindo tudo o que posso dividir. Entretanto, na prática, só encontro aqueles que um dia me fizeram o convite. Convite por meio dos seus ensinamentos, vividos ou falados, escritos ou testemunhados. Esses adoráveis mestres que seguem o Mestre de todos e que, pela vontade do Pai, chegaram até mim com seus conteúdos e inebriaram a minha alma. Caminhar é decisão.

                        Sou caminhante com outros caminhantes que, embora mais distantes, sempre acenam para mim, como a dizer: siga em frente, não olhe para trás, não desfaça os planos, não ceda aos enganos, não muda de rota. E assim, apesar de tudo, das perdas sofridas e dos ganhos prometidos e ainda não recebidos, estou na estrada. Caminhar é minha sina.

                       Sei que um dia, num determinado momento, depois de uma água fresca e até de um remanso, serei parado para sempre e conduzido na direção do mar, do oceano da vida, para mergulhar nas águas profundas e eternas de Deus. caminhar, tem recompensas!

_______________________________________
*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.

out 30

EVANGELHO: O PÃO NOSSO DE CADA DIA

BÍBLIA NOVÍSSIMA

SEXTA-FEIRA, 30 DE OUTUBRO DE 2015 –

30ª Semana Tempo Comum –

Evangelho - Lc 14,1-6 –

Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado? –

† Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas 14,1-6 –

1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 2 Diante de Jesus, havia um hidrópico. 3 Tomando a palavra, Jesus falou aos mestres da Lei e aos fariseus: 'A Lei permite curar em dia de sábado, ou não? 4 Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 5 Depois lhes disse: 'Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?' 6 E eles não foram capazes de responder a isso. 

Palavra da Salvação!

out 30

A VIDA DA PALAVRA, POR MEIO DA LITURGIA!

CÁLICE

LEITURAS SUGERIDAS PARA HOJE – SEXTA-FEIRA – 30/OUT/2015 –

2ª Leitura - Rm 9,1-5 Salmo - Sl 147 (148),12-13. 14-15. 19-20 (R. 12a) Evangelho - Lc 14,1-6 Reflexão - Lc 14, 1-6

out 29

RETRATOS DA FAMÍLIA

FAMÍLIA PÓS MODERNA

A FAMÍLIA NA PÓS-MODERNIDADE

 
*Por Pastor Elton Pothin

                               A noção do que seja uma família tradicional (pai, mãe, filhos, avós, tios e tias) se perdeu na poeira do tempo. Ainda que ela permaneça talvez como um ideal a ser alcançado, ela sofreu muitas mudanças. 

                               A mídia, de forma especial as telenovelas, se encarregaram de difamar a família. Há sempre brigas tanto entre marido e mulher como entre pais e filhos, traições, confusões. A paz em família é o que menos se vê nas telenovelas. Assim, vivemos em uma época em que os critérios que regem uma família não estão mais ligados à fidelidade (é difícil encontrar um casal onde um não tenha traído o outro), ao amor (é difícil encontrar um casal que ainda se ama com o passar dos anos – há brigas, desentendimentos e desinteresse entre o casal) à confiança e à construção de uma história de vida (a casa ou apartamento passou a ser “dormitório”, onde cada um vai para dormir – pois as refeições são feitas fora - onde muitas vezes marido e esposa, pais e filhos já não se encontram devido aos horários de trabalho ou estudo diferentes). Assim, muitas vezes já não sabem mais o que dizer um ao outro quando se encontram e o diálogo na família cessa, dando lugar à televisão, à internet, ao celular. Cada um na sua, marido e mulher, pais e filhos dividindo o mesmo espaço físico, mas já não dividindo uma história de vida comum. 

                               Há algum tempo, era importante a família pertencer a uma Igreja Cristã. E a vida era organizada a partir da fé cristã: batismo, primeira comunhão, crisma (na Igreja Luterana, a confirmação), casamento, bodas, sepultamento cristão. Os jovens depois da confirmação ou da crisma iam na juventude da Igreja. Hoje, é difícil ver uma família indo junta para a Igreja. O pai e a mãe são de Igrejas diferentes. Ou um vai à Igreja e o outro não vai. O filho/a não acompanha os pais ou um dos pais, pois estes não tem mais autoridade sobre os filhos e estes fazem o que bem querem. No Natal, na Sexta-Feira da Paixão, na Páscoa, todos iam à missa ou ao culto! Hoje, muitos “aproveitam” o feriado para viajar! 

                               Pertencer a uma família era conhecer os nomes e a origem dos avós e bisavós, era conhecer os tios e tias. Padrinhos e madrinhas de batismo eram pessoas importantes. Hoje, os familiares mal se conhecem, nem se visitam mais! Não há mais tempo para isso! E nem mesmo interesse, pois os jovens não tem mais interesse em fazer as visitas familiares “chatas”! Afinal, o que fazer com primos e primas que mal a gente conhece? E, quando acontecem estes encontros, cada um fica na sua, ou no seu celular, na sua ilha, sem interagir com os familiares. Para a geração jovem, quase tudo é “chato” e “sem graça”! 

                               Outro aspecto assustador: os pais perderam sua autoridade! E por responsabilidade deles mesmos! O pai, em especial, perdeu sua função como educador! As mães passaram a ter a responsabilidade de educar os filhos. Mas nem isso é mais possível, porque o mundo moderno jogou a mulher no mercado de trabalho e não há mais tempo para educar o filho/a. Assim, a educação dos filhos ficou terceirizada, ficando por conta da babá, da creche, da escola. Ou melhor, ficou por conta de ninguém! Porque a babá não pode dizer nada para a criança porque vai ser processada por ter “ofendido ou maltratado o meu filho”, e ai da creche ou da escola que dizem qualquer coisa para meu filho! – processo na hora! – “Porque o meu filho não mente, o meu filho não briga, o meu filho não diz palavrão!” – e é o que mais faz isso! Assim, a criança não é mais educada, não se colocam limites, não se colocam valores. Igreja, Deus, ética, honestidade, verdade, família, educação, respeito pelos mais velhos, respeito pelos professores, respeito pelas autoridades não existe mais! Jovens fazem o que querem em nossa sociedade e nem mesmo a autoridade policial pode pôr limites! A geração jovem perdeu seus limites por responsabilidade dos próprios adultos, dos próprios pais que “passam a mão na cabeça”, tudo desculpam, tudo justificam e não colocam limites. E depois se queixam que “o filho não obedece mais” ou “não sabem o que acontece que essas crianças são tão desobedientes.” 

                               Outro aspecto a considerar é que os filhos não são mais educados para serem pessoas honestas, cidadãos de bem, pessoas cristãs. Na época em que vivemos, o que importa é o sucesso. O que importa é que meu filho tenha sucesso na vida, que se dê bem, tenha um bom salário. Os pais querem ter orgulho dos filhos, mas não porque é uma pessoa de bem, que é honesto, que vai na Igreja, mas porque conseguiu um trabalho ou meio de vida que lhe proporciona um bom rendimento financeiro e uma vida confortável. Os pais querem projetar nos filhos o que eles mesmos gostariam de ser e ter, mas que não conseguiram. Assim, o filho se transforma em um produto de consumo dos pais, que eles têm orgulho em exibir! E aqui entra a mídia. Filhos que são expostos excessivamente no facebook como se fossem troféus! O filho é a conquista, é o sucesso a ser mostrado! O limite ético é aquilo que atrapalha o sucesso. Em outras palavras, não há limites para que o caminho esteja livre para o sucesso! A palavra usada para esse comportamento é narcisismo – paixão sem limites por si mesmo. 

                               Até agora problematizamos e vimos diversos aspectos preocupantes nas famílias de nossos dias. Sabemos que voltar ao passado não é mais possível. A história não anda para trás. No próximo artigo, veremos ainda alguns outros aspectos e iremos conversar sobre alternativas do que se pode fazer para que valores éticos, cristãos ainda possam estar presentes na nossa vida.

  ____________________________________________
*Pastor Elton Pothin, é natural de Arroio do Tigre-RS, formou-se em Teologia pela Faculdade de Teologia da Escola Superior de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil em São Leopoldo/RS, em julho de 1993. Atuou como Pastor nas Comunidades de Teutônia/RS; Martin Luther (Joinville/SC) e, ultimamente, está à frente da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana em Petrópolis-RJ.
 

out 29

LUÍS DE FRANÇA: REI E SANTO – PARTE IV

 

SÃO LUÍS DE FRANÇA - FREI SANDRO

SÃO LUÍS DE FRANÇA E OS FRANCISCANOS

PARTE VI -

*Por Frei Sandro Roberto da Costa, ofm -

A espiritualidade que moveu São Luís de França

2.2 São Luís e a espiritualidade mendicante

CONTINUAÇÃO

 2.2.1 Sua devoção à Paixão

                        A posse de relíquias era prática comum na Idade Média. Devoção, prestígio, necessidade de proteção eram elementos que se misturavam na procura por relíquias cada vez mais preciosas. Luís tinha um apreço especial pelas relíquias da paixão de Jesus. Prova disso é um acontecimento envolvendo a relíquia do cravo de Jesus. Em 1232, quando a relíquia foi exposta para veneração dos fiéis na catedral de Saint Denis, acabou caindo do relicário e desapareceu. Seguiu-se uma comoção em todo o reino. Guilherme de Nagis relata o sentimento do rei e sua mãe: “O santo rei Luís e a rainha sua mãe, quando souberam da perda desse altíssimo tesouro e o que tinha acontecido ao santo cravo sob seu reinado, sentiram grande dor e disseram que notícia mais cruel não podia ter sido levada a eles nem lhes fizesse sofrer mais cruelmente”[33]. Esta devoção era testemunhada publicamente na Sexta-Feira Santa: “A sua devoção à Cruz, especialmente na Sexta-Feira Santa, tem como momento forte a visita das igrejas ‘próximas do lugar onde se encontrava’: ia lá ‘descalço’, e depois, para a adoração da cruz, tirava o chapéu e a touca e avançava, de cabeça descoberta de joelhos, até à cruz, ‘beijava-a’, e por fim ‘punha-se inclinado para o chão com os braços abertos, como na cruz, durante todo o tempo em que a beijava, e diz-se que enquanto fazia isto chorava’”[34].

                              Nada, porém, supera o esforço para conseguir duas das relíquias mais preciosas para a cristandade: a coroa de espinhos de Jesus e o lenho da Santa Cruz. Luís adquire a coroa do Imperador de Constantinopla, Balduíno. Quando a coroa entra em território francês, em 1239, depois de uma longa viagem desde Constantinopla, o rei e seus irmãos vão ao seu encontro. Carregam o relicário às costas, em procissão, vestidos de túnica branca e descalços, em sinal de humildade e penitência. Os nobres também se associam aos príncipes, participando descalços da procissão. Seguem-se a aquisição do lenho da Cruz e de outras relíquias da Paixão, como a esponja e o ferro da santa lança. Para guardar as relíquias, Luís construiu um dos maiores tesouros da arte gótica: a Saint-Chapelle, capela privada do rei. A estas relíquias preciosas soma-se o travesseiro de São Francisco, enviado ao rei pelos frades de Assis, quando de sua coroação, em 1226.

                        O movimento cruzado tem sua legitimação nesta devoção às relíquias: as terras onde Cristo nasceu, viveu e morreu, estão em mãos infiéis, de pecadores. Jerusalém, a maior relíquia da cristandade, precisa ser libertada.

 2.2.2 Um rei paciente no sofrimento

                        Luís é um rei que, como cristão exemplar, suporta pacientemente os sofrimentos. E não são poucos. Ainda jovem, aos 28 anos, após a guerra contra os ingleses, começa a sofrer de febre terçã (uma espécie de malária). Em 1244, sofre com uma diarreia tão grave, que chegam a considerá-lo morto. Nesta ocasião faz o voto de partir em cruzada[35]. As doenças o perseguem, sejam as crônicas, como a febre ocasionada pelo paludismo, sejam outras que surgem em várias ocasiões: erisipela, diarreia, escorbuto. Mas todos testemunham a paciência do rei frente aos sofrimentos. Joinville testemunhou os sofrimentos do rei durante a sétima cruzada. Segundo ele, o rei, quando prisioneiro dos muçulmanos, sofria de grave infecção intestinal. Estava muito pálido, “com os ossos da coluna todos tão pontudos e tão fraco que era preciso que um homem de sua criadagem o levasse para todas as suas necessidades… À noite desmaiou por várias vezes; e, por causa da forte disenteria que tinha, foi preciso cortar o fundilho de suas  ceroulas, tantas vezes ele descia para ir ao banheiro”[36]. Na partida para a oitava cruzada, o rei estava tão fraco que provocou a indignação de seu amigo Joinville, com aqueles que o deixaram partir naquele estado. O rei mal podia caminhar, pela fraqueza: “ele não podia aguentar ir nem de carroça nem a cavalo. Sua fraqueza era tão grande que ele se resignou que eu o carregasse…”[37]. Sua morte será causada pelo tifo. Mas Luís não é um rei triste. Le Goff afirma: “Talvez nisso também haja um traço de espiritualidade franciscana”[38].

2.2.3 Luís e o combate aos inimigos da Igreja

                        Uma das mais sérias ameaças à fé cristã na passagem do século XII para o século XIII foi a heresia cátara. Por ter seu centro principalmente na região de Albi, no sul da França, eram também chamados de Albigenses.  No auge do reinado de Luís, após o duro combate da Igreja, inclusive com a pregação de Santo Antônio e outros grandes nomes das Ordens mendicantes, a heresia cátara havia se enfraquecido, mas permanecia como uma ameaça. Luís, fiel aos ditames do IV Concílio do Latrão (1215), que determinava que os soberanos cristãos dessem combate à heresia, recomenda ao filho nos seus ensinamentos: “Persiga os hereges e as pessoas ruins de tua terra tanto quanto possas, pedindo como é necessário o sábio conselho das pessoas boas a fim de purgar assim a terra”. Na concepção medieval de colaboração entre Igreja e Estado, o soberano é o defensor da fé e a realeza é o braço secular da Igreja, que deve “caçar” e combater os hereges.

                        Em relação aos muçulmanos, o fato de se empenhar na realização de duas cruzadas exemplifica bem o quanto esta atividade era importante para Luís. Os muçulmanos eram, sobretudo, os infiéis, e deveriam ser convertidos. De um rei piedoso cristão, o mínimo que se esperava é que se empenhasse na defesa da fé frente ao islã[39]. No entanto, em que pese a violência das cruzadas, em vários momentos, especificamente da primeira, Luís entra em diálogo com os muçulmanos. Algumas fontes afirmam que, durante sua prisão, surgiu um afeto e respeito mútuo entre o rei e o sultão que o mantinha prisioneiro. Outros autores relatam que os muçulmanos teriam pedido a Luís que se tornasse seu chefe. O biógrafo Godofredo de Beualieu, testemunha ocular da morte do rei, revela que, no momento extremo de sua agonia, umas das últimas palavras balbuciadas pelo rei foram de preocupação com a conversão dos muçulmanos: “tentemos, pelo amor de Deus, pregar e implantar a fé católica em Tunis. Óh, como poderíamos enviar um pregador capaz a Túnis”, e teria citado um pregador que já havia pregado em Túnis, e se tornara conhecido do sultão.

                        A relação de Luís com os judeus é mais complexa. Antes de mais nada, não podemos julgar as relações entre cristãos e judeus na Idade Média a partir dos parâmetros contemporâneos de ecumenismo e tolerância, que são conquistas modernas. Luís age como os soberanos cristãos de seu tempo. Os judeus, embora sejam uma verdadeira religião, são considerados os “assassinos de Cristo”. Luís tomou medidas severas contra os mesmos, visando a “purificação do reino”, mas ao mesmo tempo os protegeu do abuso de extremistas. Também promoveu a conversão de vários deles, e foi padrinho de alguns judeus convertidos.

                        Outro perigo que rondava o Ocidente medieval era a ameaça tártara, representada pelos mongóis. Luís acalentava o sonho de aliar-se a eles para combater os muçulmanos. Depois de algumas expedições fracassadas, enviadas pelo papa, Luís enviou o dominicano André de Longjumeau, que também não obteve sucesso. Por fim, em 1253, foi enviado o franciscano Guilherme de Roubroek, que se aventurou até a Mongólia, ao Grande Khan, em Karakorum, no coração do reino mongol. Apesar da valiosa relação que o franciscano fez da vida e dos costumes mongóis, o resultado desta missão também foi efêmero. Finalmente, em 1264, uma embaixada de 24 mongóis, tendo à frente dois frades dominicanos como intérpretes, se apresentou em Paris, propondo ao rei uma aliança contra os muçulmanos da Síria. Também esta tentativa de aliança não frutificou.

 

CONTINUA EM 12 DE NOVEMBRO

 

*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no InstitutoTeológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.

_____________________________________________ [33] Guilherme de Nagis, citado por Le Goff, São Luís, 115. [34] Le Goff, Jacques, O maravilhoso…, o,.c.. p. 86. As citações entre aspas simples dentro do texto referem-se à citação da obra de  Guilherme de Saint-Pathus. [35] Stein, Henri, Pierre Lombard, médecin de Saint Louis In: Bibliothèque de l’école des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406/bec.1939.449186.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186. [36] Le Goff, São Luís, oc., p. 175; p. 766, citando Joinville. [37] Idem, 768. [38] “Graças a Joinville, vemos São Luís rir e às vezes rir às gargalhadas”. Le Goff, Jacques, São Luísoc., p. 431. [39] A Terra Santa sempre foi, desde as origens do movimento franciscano, mais do que um lugar geográfico, um ideal de santidade e de santificação.

Posts mais antigos «

Apoio: