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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por mês: novembro 2014

nov 29

PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – 3ª PARTE

4.1 Primeiras clarissas brasileiras

Por Frei Sandro Roberto da Costa, OFM
Diz o biógrafo de D. José Fialho que assim que se instalaram em Salvador as primeiras irmãs clarissas “uma multidão de donzelas nobres e ricas abandonaram tudo para se alistarem em a nova milícia seráfica”.20 Estilo literário à parte, o fato é que muitas moças, por inspiração ou por imposição, logo povoaram os muros do novo claustro. Manuel de Oliveira Porto, que durante 3 anos contribuiu com mais de 20 mil cruzados para a construção do convento, colocou aí suas 5 filhas, 4 delas tomando imediatamente o hábito, e a mais nova, ainda sem idade para iniciar o noviciado, tomou-se “pupila”.21
A primeira brasileira que ingressou no noviciado, tornando-se portanto a primeira religiosa clarissa brasileira foi irmã Marta de Cristo. Sua irmã, Leonor de Jesus, muito nova, teve que esperar para começar o noviciado. A mestra de noviças era irmã Maria de São Raimundo. Também o limite fixado de 50 religiosas professas logo foi superado, conseguindo-se para isso permissões especiais da Metrópole.
As irmãs vindas de Portugal ficaram em Salvador durante nove anos, até 1686, quando voltaram ao convento de Évora, deixando como abadessa a primeira religiosa brasileira, irmã Marta de Cristo. Novamente recorremos ao testemunho do historiador Rocha Pita: “Deixando a casa material muito aumentada, e a espiritual subida a grande altura de virtudes, eleita no lugar de abadessa, como mais antiga, a madre Sóror Marta de Cristo, voltaram para Portugal as fundadoras no ano de mil e setecentos e oitenta e seis, depois de se empregarem nove anos no estabelecimento da comunidade, dos institutos da religião e do seu espírito...”.22
As abadessas eram eleitas por três anos. A madre Marta de Cristo sucederam as irmãs mais antigas, e ela mesma foi reconduzida várias vezes ao cargo, “porque o seu grande talento e religioso exemplo as obrigava a ocupá-la no lugar repetidas vezes”.23
Em 1739 a situação do convento do Desterro parecia deste modo a um contemporâneo: “Há um convento de religiosas de Santa Clara, que fica quase fora da cidade; é magnífico e mais amplo e maior da cidade... É dedicado a Santa Clara, com o título do Desterro. Terá ele o número mais ou menos de noventa religiosas, com várias fâmulas que, conforme o estilo da terra, são pretas. Tem várias religiosas de vida exemplar e rendas suficientes. Ainda que o descuido de alguns procuradores, enquanto a sua arrecadação, tenham produzido os efeitos próprios e naturais de uma omissão muito culpável, hoje se vê emendado este erro com muita conveniência do convento. É sujeito ao Ordinário, e os Prelados cuidam muito na sua subsistência e regularidade. Tem um capelão com renda mui suficiente.”24

4.2 Fundações derivadas do convento de Santa Clara do Desterro

4.2.1 O convento de Nossa Senhora da Lapa

No ano de 1733 os moradores de Salvador conseguiram, através de um alvará régio, a fundação de mais um convento em terras soteropolitanas. Trata-se do convento da Lapa, que leva esse nome por causa de um azulejo localizado próximo ao altar-mor da capela, com um desenho representando o presépio (Lapa). Em 1734 o papa Clemente XII enviou um breve dando instruções sobre a nova fundação: os fundadores-benfeitores, citados principalmente os senhores João de Miranda Ribeiro e Manuel Antunes de Lima, deveriam custear as obras, cujas dependências poderiam abrigar trezentas religiosas. Em 1739 o convento ainda estava em obras, portanto sem religiosas: “Há também nesta freguesia um convento novo com a invocação de Nossa Senhora da Lapa, o qual ainda que de paredes esteja acabado, não está ainda na sua perfeição, e por alguns embaraços e dúvidas que se tem movido, está sem religiosas”.25
O Breve de 1734 determinava também que duas religiosas do convento de Santa Clara do Desterro assumissem a nova fundação. Assim, no dia 7 de dezembro de 1744, irmã Caetana da Assunção e irmã Josefa Clara de Jesus deixavam o Desterro e se mudavam para o novo convento. O Breve determinava também que a nova fundação deveria seguir a Regra da Ordem da Imaculada Conceição (Concepcionistas). Madre Caetana e madre Josefa, trocando o hábito negro das filhas de Santa Clara, pelo branco das seguidoras de Santa Beatriz da Silva, assumiram como abadessa e mestra de noviças, respectivamente. As primeiras noviças foram quatro das cinco filhas do benfeitor João de Miranda, que no dia seguinte colocou aí as moças com idade entre 15 e 29 anos. A mais nova teve que esperar um ano para começar o noviciado.

4.2.2 O Convento de Nossa Senhora da Ajuda [26]

A história da fundação do convento de Nossa Senhora da Ajuda está diretamente ligada à pessoa de frei Cristóvão da Mãe de Deus Luz, religioso franciscano da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, guardião do convento Santo Antônio do Rio de Janeiro e por dois triênios provincial da neo-ereta Província (1681-1684/ 1694-1697).27 Retornando de Lisboa em junho de 1677, depois de ter ido tratar de negócios da Província, além de ter acompanhado quatro sobrinhas que ingressaram em conventos em Portugal, frei Cristóvão veio com a ideia de fundar um convento para moças no Brasil. No dia 26 de julho de 1678, dia de Sant’Anna, foi fundado um recolhimento junto à ermida de Nossa Senhora da Ajuda, nos arredores da cidade, onde ingressaram várias moças. Deu-se início a todo o processo para se conseguir a fundação de um convento canonicamente ereto, obtendo-se a licença régia em feve¬reiro de 1705.
O anseio da população e fiéis em ter um convento para suas filhas não foi correspondido pelas autoridades, de modo que nos anos seguintes, pouco se fez. Em 1741 foi escolhido um novo terreno (correspondente à atual Cinelândia, no centro do Rio). Aos poucos as obras foram avançando, e em 1748 foi obtida da Santa Sé a ereção canônica, devendo seguir a Regra de Santa Clara. Por intervenção do bispo D. Antônio do Desterro junto à Santa Sé, em 1750 foi introduzida a Regra da Ordem da Imaculada Conceição, das Concepcionistas. O convento não podia ter mais que 33 postulantes, além de algumas leigas. Deviam também adotar as Constituições do Mosteiro da Luz, de Lisboa.
No dia 21 de novembro de 1749 chegavam ao Rio de Janeiro quatro religiosas professas e duas leigas vindas do convento do Desterro, ficando hospedadas no hospício da Terra Santa. No dia 30 de maio de 1750, em solene procissão, seguida de festa, as irmãs do Desterro foram conduzidas do Mosteiro de São Bento ao novo convento. Doze postulantes iniciaram aí, sob a direção das irmãs, seu caminho na vida religiosa. Dez anos depois foi eleita a primeira abadessa concepcionista, madre Maria Isabel da Cruz. As irmãs clarissas, cumprida a sua missão, retomaram, depois de onze anos, em 1761, ao seu convento de origem.
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20. REB, 642, nota 20. 21. Pupilos ou pupilas eram crianças que, pelos mais variados motivos, viviam nos conventos (órfãos, educandos, filhos de pais desconhecidos [os “expostos”], etc.). Não eram obrigados a assumir a vida religiosa quando atingissem a idade legal (16 anos) mas era o que se esperava da maioria deles, e muitos de fato não tinham outra opção. Falando da vida religiosa feminina no Brasil, comentava o historiador Pedro Calmon: “Internaram-se raparigas em idade tenra, aos 8 e 10 anos, antes que a vocação se lhes definisse, ao contato das emoções sociais. O mosteiro era definitivo, variado, independente. Quem lá se acolhia, em sociedade que só a morte extinguia, com tantas outras companheiras igualmente sacrificadas ao mesmo ideal, se não forçadas ao mesmo destino, perdia a noção de que o resto do mundo se fizesse de lutas e sofrimentos, habituava-se indústria, ao ritmo, à rotina dos claustros, e atingia comumente a longevidade num ambiente de progressiva exaltação religiosa”. História social do Brasil, o.c., 54-55. 22. Continua o autor: “...não podendo detê-las as lágrimas das suas filhas, nem os rogos dos moradores da Bahia; e satisfeitos ainda mais das vontades que das suas ofertas, fazendo-lhes uma ostentosa despedida com honras militares, políticas e religiosas, se embarcaram na frota do referido ano, e chegaram com viagem feliz a Lisboa, donde passaram ao seu convento de Évora”. História da América Portuguesa, o.c., 186. 23. Idem. 24. REB, 642. 25. Idem. 26. Sobre o mosteiro da Ajuda fazemos aqui uma breve síntese. Remetemos, para maiores esclarecimentos, ao artigo da irmã Maria Auxiliadora do Preciosíssimo Sangue: Jubileu do Mosteiro da Ajuda, in Revista Franciscana, vol. I, nos. 1 e 2 (2001), 49-55. 27. Maiores informações sobre frei Cristóvão da Madre de Deus e seu papel na fundação do recolhimento da Ajuda: RÕWER, B., História da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Vozes, Petrópolis 1951, 24-29; 39-41.

nov 22

PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – 2ª PARTE

3. Uma alternativa aos conventos oficiais: os “recolhimentos”

 

Por Frei Sandro Roberto da Costa, OFM

Uma alternativa para sanar a falta de conventos oficiais no Brasil foi encontrada na instalação dos “recolhimentos”, casas que recebiam mulheres que nutriam desejo de uma vida de oração e devoção, em clausura, vivendo celibatárias, mas sem os votos canônicos exigidos pela Igreja. Em geral sob a obediência e vigilância do bispo, estas casas de vida religiosa “não oficiais” se multiplicaram pelo Brasil.6 Ficaram famosos no Brasil os recolhimentos de Macaúbas e a Casa de Oração do Vale das Lágrimas.
Desta época são conhecidos também os “beatérios”, onde viviam as “beatas”, mulheres que transformavam a própria casa numa espécie de convento, onde, em número de duas ou pouco mais, geralmente irmãs ou parentes próximas, se dedicavam à oração, à prática da penitência e da caridade, em castidade. Tanto os “recolhimentos” como os “beatérios” foram uma saída original, onde se destacam o caráter extraoficial e alternativo da organização destas mulheres na procura da vivência da vida religiosa.7 Um aspecto que distingue estas instituições, em relação às instituições oficialmente erigidas, é que nestas não havia exigências de cor, de dote (ao menos no início), nem de extrato social para o ingresso. As mulheres brancas pobres, as negras e mulatas, que quisessem viver a vida religiosa em comunidade, podiam fazê-lo ingressando nessas instituições.8 Por isso, mesmo após a fundação dos conventos oficiais, a existência dos “recolhimentos” e “beatérios” continuou sendo uma realidade na colônia. Eram uma resposta brasileira às dificuldades encontradas pelas mulheres pobres da colônia na vivência da vida religiosa.9

4. Fundação do primeiro convento no Brasil: Santa Clara do Desterro 10

Em meados do século XVII a cidade de Salvador era das mais prósperas do Brasil, tomando-se, no final do século, a cidade mais importante da colônia. Contrastando com a abundância de conventos das ordens masculinas, de jesuítas, beneditinos, franciscanos e carmelitas, não havia sido fundado nenhum convento para acolher mulheres.11 Tal ausência não foi por falta de insistência dos moradores, que várias vezes se dirigiram às autoridades da metrópole, sem sucesso. Rocha Pita escrevia por volta de 1720: “Havia muitos anos que os senadores, nobreza e povo dela o pretendiam, assim para acomodar as mulheres principais, que não tinham dotes equivalentes para casarem conforme o seu nascimento, como satisfazer o suspiro de outras que, pretendendo conservarem o estado virginal e florescerem em santas virtudes, desejavam servir a Deus nos votos e claustros da religião”.12
A permissão para a construção de um convento veio no ano de 1665. Foi escolhida para a construção a localidade do Desterro, assim chamada por causa de uma capela de muita devoção da população, dedicada a Nossa Senhora do Desterro. Determinou-se que a capela serviria de igreja para o futuro convento. Segundo as ordens do reino, o convento poderia abrigar até 50 religiosas.13 As primeiras chegaram no dia 29 de abril de 1677, às nove horas da manhã, sendo recebidas com festa pela população. Eram quatro religiosas clarissas, do convento de Évora, acompanhadas de duas servas: “...saíram estas religiosas... do seu convento de S. Clara de Évora para Lisboa... Ficaram no Recolhimento de Santa Apolônia, gastando aí três meses e meio em ensinar e instruir, com quanto se aprestava a frota que as havia de conduzir ao Brasil. Era a nau-capitânia S. Francisco Xavier, que tivera a sorte de dar aposento a estas castas virgens do Senhor... Favorecidas pela fortuna chegaram nesta Baía a 29 de abril de 1677... no meio de grande acompanhamento, entraram na Sé, onde se cantou o Te Deum em reconhecimento dos assinalados benefícios da próspera viagem, e de se acharem no novo mundo, e, salvando [dando salvas de canhão] todas as fortalezas de mar e terra, descansaram um pouco, enquanto se desafogavam dos incômodos do mar... Precedidas do mesmo acompanhamento, encaminharam-se para o mesmo hospício, onde se recolheram às oito horas da noite. O provedor Dr. Antônio de Faria Leitão foi entregar à madre abadessa Margarida da Coluna as chaves do mesmo hospício”.14
Rocha Pita dá o nome das primeiras religiosas: “Chamava-se a abadessa a madre Sóror Margarida da Coluna, as outras três companheiras as madres Maria de São Raimundo, Jerônima do Presépio e Luísa de São José, e duas servas, uma Catarina de São Bento e outra Ana da Apresentação”.15
Somente em 1677, doze anos após a autorização da metrópole, vieram as primeiras clarissas instalar oficialmente a vida religiosa feminina no Brasil. Poderíamos perguntar por que se passou tanto tempo, uma vez que os moradores insistiam tanto na fundação de um convento feminino. Com certeza não foi por causa das obras, pois quando as irmãs chegaram, ainda não existia uma construção que se pudesse chamar de convento. Ao menos é o que nos informa frei João da Apresentação, ao relatar a chegada das primeiras religiosas: “...Tinha o Senado preparado um hospício na igreja de Nossa Senhora do Desterro, para se recolherem as servas do senhor; porém, como ainda não estivesse decentemente acaba¬do, detiveram-se as religiosas dez dias a bordo...”.16 “Hospício”, no Brasil colonial, refere-se a hospedaria, lugar de estadia provisória. Rocha Pita também deixa entender que as instalações não estavam de todo terminadas: “E neste enfim domicílio estreito, com poucos cômodos principiado, a que as fundadoras foram dando forma de convento...”.17 As obras do convento prosseguiram, através das esmolas e doações dos moradores, mas por volta de 1720, época em que redigia sua obra, portanto mais de 40 anos após a chegada das primeiras religiosas, Rocha Pita afirma que o convento ainda não estava de todo terminado: “No curso de poucos anos, crescendo os dotes e as esmolas, se aumentaram as obras do convento, e posto que ainda hoje se vão continuando, tem já suntuosos quartos com a última perfeição, e ficará magnífico o todo daquele corpo...”.18
A provável causa para a demora da chegada das primeiras irmãs, uma vez que era desejo dos colonos a instalação do convento, talvez fosse a dificuldade em encontrar irmãs que se dispusessem a viajar para o Brasil. Embora os conventos em Portugal estivessem cheios de religiosas, não seria tarefa fácil encontrar mulheres dispostas a se aventurar em uma empreitada tão arriscada, principalmente em se tratando de religiosas de clausura. De novo, é Rocha Pita quem nos dá uma pista sobre o espírito que animava as primeiras religiosas: segundo o autor, as seis primeiras “se sacrificaram a fazer este serviço a Deus, e este bem à Bahia e a todo o Estado”.19
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6. Estes “recolhimentos” serviam também como local de morada provisória para moças ricas à espera do matrimônio, para adúlteras abandonadas ou ameaçadas de morte pelos maridos, ou mesmo para acolher prostitutas arrependidas, que quisessem mudar de vida (as “madalenas”). Serviam também como casas de acolhida provisória de mulheres enquanto seus maridos saíam em viagem. Em todos esses casos, os “recolhimentos” estavam ligados à preservação da honra da mulher, da virgindade, muito cara à sociedade colonial. 7. Quando dizemos “original” não queremos dizer que tenha sido exclusividade do Brasil. Lembremos o exemplo de Santa Rosa de Lima, que fez da própria casa uma espécie de “beatério”. A originalidade está no fato de que estas experiências surgem em várias partes do Brasil, de norte a sul, aparentemente sem que houvesse ligação entre elas. Sobre várias mulheres que transformaram a própria casa num “beatério”, veja-se: MOTT, L., Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu, in História da vida privada no Brasil, vol I: Cotidiano e vida privada na América Portuguesa, Fernando A. Novais (coord. geral), Laura de Mello e Souza (org. do volume), Companhia das Letras, São Paulo 1997, 155-200. 8. Sete filhas da famosa  escrava Chica da Silva foram educandas no Recolhimento das Macaúbas, entre 1767 e 1781. 9. Alguns “recolhimentos”, com o passar do tempo, assumiram a regra de alguma instituição oficial, com as consequentes exigências: votos públicos oficiais, hábito, dote, etc. A historiadora Leila Mezan Algranti comenta: “Poucas são as diferenças entre conventos e recolhimentos na Colônia, diferenças mais formais do que de prática. Não era o titulo atribuído que traçava os contornos do estabelecimento, mas as necessidades das populações locais. Estas, sim, moldavam o caráter e o significado das instituições, acomodando-as à realidade colonial. Tanto um convento poderia servir a fins seculares, como um recolhimento não professo assumir o perfil de uma casa de oração e converter-se na prática em convento”. ALGRANTI, L. M., Honradas e devotas: mulheres na Colônia, Edunb - José Olímpio, Rio de Janeiro 1993, 322. Sobre as similaridades e diferenças existentes entre “recolhimentos” e conventos, veja-se também o artigo de Jacqueline Hermann, Conventos, no Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), o.c., 148-149. 10. Como fonte para nossa exposição nos baseamos na obra do historiador Rocha Pita, contemporâneo aos anos de glória do Desterro, e na biografia de D. José Fialho, escrita por frei João da Apresentação, também contemporâneo aos dias de fausto do famoso convento: ROCHA PITA, História da América Portuguesa, Livraria Itatiaia Editora - Ed. da Universidade de São Paulo 1976; MÜLLER, B., Vida de D. Fr. José Fialho, Bispo de Olinda e Arcebispo da Baía, Revista Eclesiástica Brasileira, vol. XVI (1956), 635-645 (será citado sempre REB). Para um estudo mais aprofundado sobre o convento do Desterro, remetemos para as seguintes obras: NASCI¬MENTO, A. A. Vieira, Patriarcado e religião: as enclausuradas clarissas do convento do Desterro da Bahia (1677-1890), Conselho Estadual de Cultura da Bahia, Salvador 1994; SOEIRO, Susan, The feminine orders in Colonial Bahia, Brasil. Economic, social and demographic implications, 1677-1800, in Latiu American Women Historical Perspective, na.3, Greenwood Press Connecticut, s.d., 172-197; —. A baroque nunnery: lhe economic and social role of Colonial Convent Santa Clara do Desterro, Salvador, Bahia (1677-1800), University Microfilm, Ann Arbor, Michigan 1974. 1. A partir daqui, quando usarmos a expressão “convento”, estaremos nos referindo sempre aos conventos canonicamente eretos, segundo as exigências oficiais das autoridades eclesiásticas, submetidos a uma regra e aos votos canônicos. 12. História da América Portuguesa, o.c., 185. O historiador relata fatos ocorridos até o ano de 1724, como diz o título original de sua obra: História da América Portuguesa desde o Ano de 1500 de Seu Descobrimento até ao de 1724. Sobre Rocha Pita veja-se o artigo de Guilherme Pe¬reira das Neves, Rocha Pita, no Dicionário do Brasil Colonial, o.c., 511-512. 13. “Tinham os moradores começado o convento no sítio de Nossa Senhora do Desterro, assim pelo retiro e amenidade dele, como pela grande e milagrosa casa de Nossa Senhora desta invocação que lhe havia de servir de igreja”. História da América Portuguesa, o.c, 185. 14. REB, 642, nota 20. 15. História da América Portuguesa, o.c., 185. 16. Frei João da Apresentação, religioso franciscano, é o autor da biografia de D. José Fialho, Arcebispo da Bahia desde 1739. 17. História da América Portuguesa, o.c., 185. 18. Idem. 19. Ibidem.

nov 15

PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – 1ª PARTE

VIDA RELIGIOSA FEMININA E SITUAÇÃO DA MULHER NO BRASIL COLONIAL: AS PRIMEIRAS CLARISSAS

Por Frei Sandro Roberto da Costa, OFM

Introdução

Na presente exposição pretendemos fazer um breve estudo sobre a primeira fundação de religiosas clarissas do Brasil, situando-a no contexto mais amplo da história da mulher na sociedade colonial. Aproveitando o ensejo das celebrações dos 750 anos da morte de Santa Clara, queremos fazer memória das mulheres que, a exemplo de Clara, lutaram para fazer valer seus ideais na busca da vivência da santidade. Tais respostas não foram, já no tempo de Clara, dadas sem contradições. Também no Brasil colonial as mulheres, inseridas num contexto social e econômico específico, deram respostas a partir dos desafios que a realidade concreta lhes apresentava. E estas respostas também se mostraram contraditórias. Sabemos que na história não podemos julgar os atos e comportamentos do passado com o olhar contemporâneo. O contexto, a cultura, o modo de pensar e conceber o mundo e as relações humanas criaram mecanismos, sistemas e estruturas que, se hoje parecem inaceitáveis, há 3 ou 4 séculos atrás eram aceitos com naturalidade. O estudo da história da vida religiosa feminina no Brasil se constitui numa “chave de leitura” para a compreensão de alguns destes mecanismos e estruturas que norteavam a sociedade colonial. Estudar a instauração do primeiro convento canonicamente ereto no Brasil nos ajuda a entender a mentalidade do homem e mulher coloniais, profundamente religiosos, mas ao mesmo tempo profundamente inseridos no seu contexto sociocultural.

1. Situação da mulher religiosa no Brasil Colônia

Na sociedade colonial brasileira a mulher ocupava um lugar secundário, com o papel reduzido à vida familiar, de total submissão ao pai ou ao marido.1 O futuro das filhas era decidido pelo pai. Era ele que deveria “arranjar” o casamento, ou decidir se a filha deveria entrar para um convento. De um modo ou de outro, a mulher estava condenada à reclusão2. A mulher virtuosa era a mulher casada ou a religiosa. A solteira era mal vista. Aos 14-15 anos a moça já devia começar a esperar que o pai lhe apresentasse seu futuro esposo. Se até os 18-20 anos não conseguia despertar o interesse de ninguém, começava a se preocupar, pois corria o risco de ficar solteira.

2. Instalação tardia de conventos regulares no Brasil

Em meados do século XVII, quando vai ser permitida a instalação do primeiro convento de vida religiosa feminina no Brasil, a América espanhola já contava com cerca de 70 fundações.3 Tal demora não significa que não houvesse no Brasil mulheres interessadas em seguir esse estilo de vida. Pelo contrário, havia moças que se sentiam sinceramente inclinadas a uma vida de devoção e piedade, uma vida de “maior perfeição” como se entendia na época, buscando ingressar nos claustros de um mosteiro. Mas aquelas que quisessem fazê-lo deveriam ingressar num mosteiro em Portugal. Evidentemente poucas privilegiadas tinham condições de arcar com as despesas da viagem, além do dote exigido.
Por que não se fundaram conventos logo no início da colonização do Brasil, a exemplo do que aconteceu na América espanhola? Antes de tudo, a fundação, construção e manutenção de um convento exigia recursos econômicos consideráveis. A princípio o sistema de exploração instaurado pela metrópole na colônia não permitiu o surgimento de uma elite socioeconômica em condições de “bancar” a contração e manutenção de um convento. Os homens tiveram seus conventos financiados pelo sistema de Padroado desde o início da colonização. Com as mulheres a situação foi diferente, pois o Padroado não se interessava em investir em obras cujo retorno era praticamente nulo em termos políticos. Desta forma, os conventos femininos foram sustentados pelo setor privado, tanto na construção quanto na manutenção. Pode-se dizer que foi a “casa-grande” que sustentou os conventos de freiras. A partir de 1600 a economia açucareira começa a se desenvolver de forma mais acentuada, fortalecendo os grandes engenhos e possibilitando o surgimento de famílias abastadas, favorecendo também o desenvolvimento das cidades. A existência de um convento dava prestígio à localidade, além de ser um refúgio seguro para as filhas e esposas dos senhores mais ricos do lugar.
Outro fator que explica a tardia fundação de conventos no Brasil é a proibição da Coroa. As autoridades do Reino sempre foram reticentes em relação à fundação de conventos para mulheres, colocando na questão populacional um dos principais argumentos. A colônia precisava de mulheres brancas para serem mães e esposas de seus homens. A mestiçagem surgida do concubinato dos colonos com as negras e índias preocupava a Coroa. Era necessário manter a hegemonia branca e lusitana. Mulheres brancas da elite, órfãs pobres e até prostitutas deveriam garantir esse papel.4 Numa carta de 1603, recusando o pedido de fundação de um convento, o rei se expressava nos seguintes termos: “...não é conveniente erigir conventos de freiras nessas regiões, uma vez que as terras a ser povoadas são tão vastas que são necessários mais habitantes do que os que aí vivem no momento”.5
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1. Nossa afirmação se refere, grosso modo, aos dois primeiros séculos do Brasil Colônia. Do mesmo modo, um estudo mais aprofundado deveria levar em consideração as diferenças de comportamento da mulher, dependendo da classe social à qual pertencia. O historiador Pedro Calmon comenta: “A reclusão feminina - que tanto impressionou os viajantes estrangeiros - foi extrema nas cidades, e entre os emboabas. As famílias nativas sempre se mostraram mais acessíveis, joviais, curiosas; as portuguesas, desconfiadas, isoladas, tristes”. CALMON, P., História social do Brasil, vol. I: Espírito da sociedade colonial, Martins Fontes, São Paulo 2002 (Ia. edição: 1935), 27. A medida que avançam os séculos, com o advento do iluminismo, a situação da mulher, também no Brasil, tende a se modificar. A historiadora Sheila de Castro Faria, no Dicionário do Brasil Colonial, afirma: “...foi basicamente a partir das imagens construídas pelos viajantes e cronistas que se forjaram as figuras da mulher branca reclusa, tolhida e dominada, e a da mulher escrava, negra ou mestiça, como extremamente sensual. A partir da década de 1980, a historiografia passou a rever esses estereótipos. Questionou, principalmente, a tão alegada submissão feminina, mostrando que uma coisa era o modelo ideal de conduta feminina veiculado pelos moralistas e outra bem diferente eram as condutas das mulheres, não raro desafiadoras, em vários aspectos”. A autora afirma ainda que já nos primórdios da colonização encontram-se mulheres à frente dos engenhos, vendas e tabernas. Continua a autora: “A historiadora Leila Algranti afirma que romper com os estereótipos de reclusão e submissão das mulheres foi uma contribuição definitiva da historiografia, mas alerta para o risco de se excluírem da história as mulheres menos ousadas que viveram reclusas ou se submeteram à dominação masculina, possivelmente a grande maioria, segundo a autora”. FARIA, S. C., Mulheres, in Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), R. Vainfas (direção), Objetiva, Rio de Janeiro 2000, 414-416.
2. O historiador Henrique Cristiano Matos afirma que a vida da mulher na colônia pode ser resumida nos chamados 7 “c”s: casamento, criança, cama, casa, cozinha, capela e confessionário. Cf. MATOS, H. C. J., Nossa História, Tomo I, Paulinas, São Paulo 2001, 243. Podemos acrescentar um possível oitavo “c”: convento. 3. Neste número estão incluídas todas as ordens e congregações religiosas femininas presentes na américa espanhola. O primeiro convento de clarissas foi fundado em 1551, na cidade de Santo Domingo. A partir daí, até 1782, vão ser fundados em toda a colônia espanhola 34 conventos de religiosas clarissas. Em 1601, o convento de Santa Clara na Cidade do México tinha 170 religio¬sas. Cfr. BORGES, P., Religiosos en Hispanoamérica, Editorial Mapfre, Madrid 1992,267-325. 4. Desde a chegada dos jesuítas (1549), horrorizados com o concubinato dos portugueses com a índias e escravas, foram trazidas de Portugal, por sugestão dos religiosos, mulheres brancas para se casarem com os colonizadores. A propósito desse terna, veja-se o filme “Desmundo”, de Alain Fresnot: Brasil, 2002. 5. Citado em DEL PRIORE, M. (org.), História das Mulheres no Brasil, Contexto, São Paulo 1997,484. A crescente ida de mulheres da colônia para ingressarem nos conventos da metrópole vai dar origem a um alvará régio, de D. João V, datado de 14 de março de 1732, proibindo a saída de mulheres da colônia.

nov 14

É O FIM DO MUNDO?

                                             Fim do mundo

É O FIM DO MUNDO?

 

                                     Os dias atuais trazem péssimas notícias para quem se dispõe a se sentar diante de qualquer meio de comunicação. São mortes, estupros, assaltos, tráfico, prostituição, casamentos dos mais loucos possíveis e das formas mais esquisitas, destruição das florestas, dos rios e da fauna. Enfim... Um sem número de ocorrências que levam os mais afoitos a exclamarem, sem titubear: estamos no fim do mundo! Outros, mais revoltados, afirmam: Tá na hora de acabar com tudo isso, e começar uma nova civilização. Será mesmo?

                                  Não. Parece- nos que existe um enorme equívoco quanto à visão que se tem do mundo. Imagine um homem que, embriagado, cai estatelado no chão e, na queda, fica com o rosto afundado numa poça de água suja, barrenta e fedorenta. Ao acordar e recobrar os sentidos, esse homem abre os olhos, sente aquele estonteante mau cheiro e pensa consigo, sem se mexer: “afundei em um terreno pantanoso, extremamente imundo. Devo estar todo enlameado. Mas, qual não é a sua surpresa quando, ao se erguer do chão, percebe estar em um gigantesco parque, com muita grama e com muitas flores, com crianças correndo e brincando mais à frente, com pessoas sentadas em bancos de madeira, lendo seus jornais e suas revistas, com um sorveteiro e um pipoqueiro vendendo seus produtos e, olhando para cima, percebe aquele céu de brigadeiro. Admirado com todo aquele cenário, o homem abaixa os olhos e vê que, justamente no lugar onde caiu com o rosto achatado, existe um côncavo meio barrento e com uma pequena poça de xixi de cachorro, obviamente, exalando um odor muito desagradável. No entanto, logo ele percebe que sua roupa está limpa e que, inclusive, todo o parque está bastante limpo e saudável. Enquanto permanecia deitado ao solo, a imagem que aquele homem projetava em sua mente era de estar em um terreno repleto de lama, sujeita e mau cheiro. Suspeitava que toda a sua vestimenta estivesse embebida daquela água suja e fétida. Foi preciso que ele se levantasse e olhasse à sua volta, para perceber o quanto estava equivocado.

                                   O mesmo está acontecendo no mundo atual. As pessoas estão com os olhos, os ouvidos e as mentes voltados para o noticiário, verdadeiro, sim, porém, bastante sensacionalista, e estão deixando de enxergar o mundo como um todo, ou seja, enxergar o mundo em toda a sua plenitude. Com isso, estão se impedindo de ter acesso às ótimas notícias acerca da renovação da criação, por meio de novas formas de vida descobertas por cientistas do mundo todo; estão se privando de conhecer o trabalho realizado por religiosos e religiosas, de várias denominações cristãs e não cristãs, em todos os continentes; estão ficando alheias à estupenda quantidade de mel produzida pelas abelhas. Mel que vai ser utilizado como alimento e como remédio no mundo todo. Estão ficando longe de saber que cientistas que trabalham de forma heroica, estão descobrindo a cura para várias espécies de doenças que atormentam a vida dos seres humanos; estão se excluindo do conhecimento acerca do trabalho desenvolvido por incontáveis ONG’s sérias, que estão a serviço da humanidade. Tudo isso, sem detalhar o excelente trabalho desenvolvido pela Cruz Vermelha, nacional e internacional; pelos médicos sem fronteiras; pelos professores abnegados que adentram por todo o mundo, levando conhecimento básico a crianças, jovens, adolescente e até adultos esquecidos pela civilização; pelo Corpo de Bombeiros e pela defesa civil; por aqueles que se preocupam com a limpeza urbana, com o saneamento básico das cidades, com o uso responsável e saudável da água e com a coleta pontual e com a reciclagem do lixo urbano.

                                           Enfim, se levantarmos as nossas cabeças e olharmos mais adiante, veremos que o mundo está maravilhoso e pediremos ao Criador que o mantenha assim, cada dia melhor. É claro que não podemos fingir que tudo que existe de ruim não nos afeta ou incomoda. Afeta muito, incomoda demais e precisamos lutar para combater tudo o que está errado em nossas sociedades. Entretanto, é preciso reconhecer que, feitas todas as contas, se temos muitas lágrimas a derramar, temos, também, muito a comemorar, a celebrar. Uma criança que vence o câncer e volta a sorrir não pode ter aniquilados o seu crescimento e o seu conhecimento, só porque adultos mal humorados acham que está na hora de o mundo ter um fim. Um idoso resistente e saudável, depois de uma vida de lutas e de trabalhos, não pode perder a chance de curtir sua velhice da forma mais plena e feliz possível, só porque pessoas que não enxergam um palmo além dos próprios narizes acham que tá tudo errado e pior, afirmam que Deus vai lançar castigos sobre esta geração. Deus não vai lançar nenhum castigo sobre esta geração, até porque, Ele, com a plena visão que tem sobre o finito e o infinito, sabe que suas criaturas, apesar dos pesares, estão caminhando de forma progressiva e que, assim, estão contribuindo para o aperfeiçoamento da própria criação.

                                         Agora, uma coisa deve ser levada em consideração: ainda precisamos evoluir bastante, para que o mundo se torne um lugar bom, seguro e cem por cento saudável para a manutenção da vida, em todos os seus aspectos. Os seres humanos, como detentores da razão, precisam trabalhar em prol dos menos favorecidos, inclusive, intelectualmente. Divulgar conhecimentos, propagar novas formas de convívio comunitário e social, promover a paz em todos os extratos sociais, combater de forma ostensiva e ininterrupta toda forma de discriminação e de violência é dever de todos nós. E, se assim não temos procedido, somos responsáveis, ainda que de forma indireta, por todos os males que as mídias não se cansam de jogar à nossa frente, como que querendo nos conduzir para o suicídio coletivo, porque está tudo errado, perdido, sem solução, sem justiça, sem igualdade etc.

                                     Portanto, não sejamos apologistas do caos, clamando pelo fim do mundo. Não sejamos coniventes com a sentença lançada pelos ignorantes, segundo a qual, está na hora de tudo terminar, pra recomeçar de outra forma. Levantemos nossas cabeças, olhemos ao nosso redor, e, como aquele homem do parque, e percebamos que o mundo, apesar de tudo, é belo e que muitas coisas boas estão acontecendo diariamente em todas as latitudes.

                                          Que Deus, por intermédio do seu Santo Espírito, nos mostre os caminhos que temos que trilhar para vivermos em harmonia uns com os outros, vencendo todas as barreiras construídas com o cimento da vaidade, do orgulho, da arrogância e da prepotência e possamos não mais pensar e disseminar a ideia do fim do mundo, mas, sim, defender e divulgar a ideia da vida e do necessário aperfeiçoamento de toda a criação. Pensemos sobre tudo isso e renovemos as lentes com as quais temos olhado para o mundo. Talvez, de pé, consigamos admitir todos os nossos equívocos.

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